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Cuiaba - MT / 26 de agosto de 2026 - 10:27

Rinha de políticos radicais em podcasts gera cortes e engajamento e invade campanhas

Em 22 de julho, dois pré-candidatos a deputado federal em Pernambuco protagonizaram um debate extremo, em muitos sentidos. De um lado estava o historiador Jones Manoel (PSOL), uma das figuras com maior presença digital na esquerda brasileira atual —ou na esquerda radical, espectro em que ele faz questão de se situar. Do outro, o jornalista e vereador Eduardo Moura (Novo), nome em ascensão na direita radical pernambucana.

Promovido pelo podcast Fala Ordinário, braço do perfil Recife Ordinário (2,2 milhões de seguidores no Instagram), o encontro mobilizou expectativas: bares da cidade fizeram exibições ao vivo em telão, anunciando o evento como se faz em decisões no futebol.

Quando Jones já estava no estúdio, Moura avisou que não iria, para desespero do apresentador Gabriel Oliveira. Quando ele anunciava ao vivo o cancelamento, o vereador do Novo chegou de surpresa, e o mal-estar pela travessura deu o tom do que viria a seguir. O debate durou mais de três horas e foi marcado pela violência verbal.

Jones chamou Moura de “canalha”, “desequilibrado”, “misógino”, “imbecil”, “surtado” e “vagabundo”, entre outros xingamentos. Moura chamou Jones de “lixo humano”, “semianalfabeto”, “frouxo”, “escória”, disse que o oponente merecia pena de morte e de prisão (“e no presídio até virando mulher”).

As diferenças ideológicas entre os dois tornaram o debate virulento e tenso a maior parte do tempo, mas os maiores momentos de fúria vieram quando Moura perguntou se Jones defendia o estupro de mulheres pelo Hamas na guerra contra Israel, e o historiador respondeu que Israel comete estupros em massa e genocídio em Gaza.

“Ficou um clima bem pesado, os gritos e xingamentos estavam tão altos que quem estava de fora [do estúdio] escutava”, resume o apresentador. Oliveira conta que foi embora triste com o rumo do debate. “Aí cheguei em casa, fui caindo na real e vendo que foi justamente por isso que a audiência chegou tão longe. A briga, a baixaria, eu realmente eu não gosto, mas para uns pode ser legal.”

Segundo ele, nos momentos de pico mais de 20 mil pessoas assistiram simultaneamente à transmissão no YouTube. Mas os números mais graúdos vieram a seguir: até a última sexta (21), a íntegra do debate tinha 631 mil visualizações, um recorde para um episódio inteiro no Fala Ordinário, e alguns cortes para as redes sociais superam 1 milhão de “views”.

“Como a audiência foi tão grande, eu acho que agora sim a gente ficou preso [ao formato de reunir antagonistas ideológicos], pelo menos até o fim das eleições. Estamos fazendo toda semana”, relata Oliveira. Depois do hit, o programa promoveu os embates Gilson Machado (Podemos) x Pedro Campos (PSB), Liana Cirne (PT) x Thiago Medina (PL) e Miguel Kazan (Missão) x Rosa Amorim (PT). Todos são candidatos em outubro.

O debate Jones x Moura seria mais um entre tantos típicos de campanhas eleitorais, mas tem características que o tornam diferente dos “um contra um” tradicionais. O imenso fosso ideológico como chamariz e a longa duração —que aumenta o potencial de cortes para redes sociais e energiza suas próprias bases— configuram uma tendência iniciada há cerca de dois anos e que debutará agora em eleições gerais: as rinhas de radicais em podcasts/videocasts.

“A gente está recebendo uma procura bem grande de candidatos pedindo participação, e estamos dando prioridade para esses debates”, diz Rodrigo Arantes, coapresentador do podcast 3 irmãos, um dos que mais tem promovido encontros no modelo.

Foi no 3 Irmãos que se enfrentaram recentemente Glauber Braga (PSOL-RJ) e Rubinho Nunes (União-SP), ambos conhecidos pela contundência ao defender suas bandeiras. Spoiler: também houve xingamentos, acusações mútuas e um desfecho tenso, mas o saldo rendeu boa audiência e bons cortes para os dois lados.

“Com o tempo prolongado desses debates, você expõe suas ideias e seu pensamento político para além dos cortes rápidos e tem também a chance de demonstrar as inconsistências, as contradições e a falta de densidade política da direita e da extrema direita, tem servido como um espaço de desmoralização deles”, afirma Glauber.

Rubinho, vereador em São Paulo e candidato a deputado federal, é experiente na modalidade. Começou antes mesmo de as chamadas “mesacasts” (podcasts em formato de mesa redonda transmitidos em vídeo) virarem um poderoso veículo para políticos.

Já enfrentou os petistas Pedro Rousseff e Luna Zarattini, Silvia Ferraro (da Bancada Feminista do PSOL) e “13 socialistas”, além de Elias Jabour (PC do B-RJ).

“Nos podcasts dá para fugir daquele debate engessado, quadrado, até meio enfadonho dos veículos de TV. Permite que os candidatos apresentem suas propostas e ideias e debatam contra antagônicos de uma maneira mais livre”, diz o vereador. “Não recuso nenhum debate desses. Pretendo fazer pelo menos um por semana nesta campanha.”

Políticos e apresentadores apontam que o pioneiro nas rinhas de antagonistas entre os maiores podcasts foi o Inteligência Ltda, apresentado por Rogério Vilela –que em maio entrevistou o presidente Lula. Foi lá que Jones Manoel, um dos mais tarimbados do país nesse tipo de debate, enfrentou Kim Kataguiri (União-SP) em outubro de 2024; o vídeo do encontro tem 2,2 milhões de visualizações.

O candidato do PSOL diz que a participação em debates do tipo em podcasts foi a maneira encontrada para fazer frente ao domínio da direita nas novas mídias. “A maioria das figuras do campo progressista tem pouca presença digital, salvo exceções, como Erika Hilton e Guilherme Boulos.”

Para Jones, o auge desse formato foi entre 2024 e 2025. Rodrigo Arantes, do 3 Irmãos, e Gabriel Oliveira, do Fala Ordinário, consideram que o grande momento é agora.

“Nossa ideia é intensificar esses debates no período eleitoral. A audiência gosta bastante, o pessoal tem elogiado muito o formato mais transparente possível. Os episódios mais vistos do canal são debates políticos”, afirma Arantes. Os mais populares envolveram Jones, contra Wilker Leão (Novo-DF), com 2 milhões de visualizações, e Fernando Holiday (PL-SP), com 1,3 milhão.

No sábado (22), os ex-ministros Paulo Teixeira (PT-SP) e Ricardo Salles (Novo-SP) debateram no podcast. Além do Inteligência Ltda e do 3 Irmãos, Spectrum, RedCast, TubaCast, Não Minta Pra Mim e BarbaCast são outros podcasts de grande alcance que têm promovido debates políticos.

Rubinho Nunes concorda com Jones que esse formato tem sido a forma de a esquerda tentar tirar a distância na vantagem da direita na esfera digital.

“Só de 2024 para cá, começam a surgir alguns nomes de esquerda que se comunicam mais através das redes. Isso acabou evoluindo para o debate, porque tem um antagonismo ideológico muito grande, que criou ambiente para o confronto público de ideias”, diz ele.

Eduardo Moura vai na mesma linha. “Os podcasts querem engajamento. E o que gera engajamento hoje? Antagonismo”, diz o candidato do Novo.

noticia por : UOL

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