Uma das “caras novas” do PT na Câmara dos Deputados em 2027 pode ser um octogenário que foi condenado a dez anos de prisão e não disputa uma eleição há mais de duas décadas: José Dirceu.
Aos 80 anos, em tratamento contra um linfoma diagnosticado em maio no Hospital Sírio-Libanês, o petista faz campanha para deputado federal por São Paulo a partir de casa e por videoconferência. Ele volta às urnas 24 anos depois da última disputa — as duas décadas intermediárias foram tomadas pela cassação de mandato no Mensalão, pela condenação no Supremo, pela aplicação, em outubro de 2016, do indulto natalino de Dilma Rousseff pelo ministro Luís Roberto Barroso, e pela anulação, em outubro de 2024, dos processos da Lava Jato conduzidos por Sergio Moro. A
candidatura foi pedida pessoalmente por Lula, recebeu R$ 1,16 milhão do fundo eleitoral do PT no dia 25 de agosto e é apresentada por Dirceu como plataforma para propor, do Congresso, uma reforma do sistema político-eleitoral brasileiro.
Uma pré-candidatura anunciada em festa e lançada por videoconferência
Dirceu confirmou a pré-candidatura em 15 de março, no evento de comemoração de seus 80 anos, na zona leste de São Paulo. Em entrevista ao Poder360 naquele dia, disse ter aceitado “a pedido e a convite do presidente Lula”. Repetiu o roteiro em Campinas, em 20 de junho, e em uma plenária virtual no dia seguinte, que reuniu mais de 700 participantes online. Entre eles, os ministros Miriam Belchior (Casa Civil) e Alexandre Padilha (Saúde), o presidente do PT, Edinho Silva, a ex-ministra Marina Silva, a ex-prefeita Luiza Erundina e o deputado estadual Eduardo Suplicy.
Duas semanas antes da plenária, em 10 de maio, Dirceu havia sido internado no Sírio-Libanês para exames que resultaram em diagnóstico de câncer no sistema linfático, localizado no duodeno. O boletim médico assinado pelo diretor de Governança Clínica do hospital, Luiz Francisco Cardoso, informou tratamento sob os cuidados dos médicos Raul Cutait, Roberto Kalil e Celso Arrais. Dirceu recebeu alta após concluir o primeiro ciclo de quimioterapia e voltou para casa em 19 de maio, quando anunciou nas redes sociais a decisão de manter a campanha em paralelo ao tratamento. O protocolo previa cinco sessões.
Por ter a imunidade comprometida, Dirceu evita aglomerações. A pré-campanha migrou integralmente para o formato remoto, baseada em entrevistas a veículos petistas e alternativos, transmissões ao vivo, reuniões partidárias virtuais e artigos. Zeca Dirceu, deputado federal pelo PT do Paraná e filho do ex-ministro, funciona como interlocutor público da candidatura.
R$ 1,16 milhão do fundão e a aposta do PT paulista
A campanha oficial começou em 16 de agosto, com o primeiro turno marcado para 4 de outubro. Nove dias depois, a direção nacional do PT transferiu por Pix R$ 1,16 milhão do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para a conta de Dirceu, que declarou o valor à Justiça Eleitoral. Na véspera, ele havia recebido uma doação de R$ 60 mil do empresário Humberto Bhering Conti, segundo apurou o portal O Antagonista.
A cifra reflete a ambição eleitoral do partido em São Paulo. O PT tem hoje 11 deputados federais pelo estado e trabalha para eleger entre 17 e 18 em outubro, aproveitando a provável recusa de Guilherme Boulos, o candidato mais votado do estado em 2022 (1.001.472 votos), a disputar a reeleição. Reservadamente, o PT-SP fixa a “nota de corte” para eleger seus candidatos entre 140 e 150 mil votos, segundo apuração do JOTA. Dirceu tem o histórico eleitoral para caber com folga na conta: em 2002, na última vez em que concorreu, obteve 556.563 votos e foi o segundo candidato mais votado a deputado federal em São Paulo.
O que Dirceu quer fazer no Congresso
Em entrevista à TV 247 publicada em 13 de agosto, Dirceu descreveu como prioridade legislativa uma reforma do sistema político-eleitoral. Os pontos que mencionou: adoção do voto em lista ou do sistema distrital misto; fortalecimento da fidelidade partidária; revisão da representação dos estados na Câmara dos Deputados; e fim do modelo atual de emendas parlamentares impositivas. O argumento é que o volume de recursos controlados hoje pelo Legislativo passou a interferir na disputa eleitoral e no equilíbrio entre os poderes.
À Deutsche Welle, Dirceu descartou qualquer cargo executivo em um eventual novo governo Lula. A vaga na Câmara, disse, é o cargo mais alto que pretende ocupar.
Antes do PT
Nascido em Passa Quatro, Minas Gerais, em março de 1946, Dirceu chegou a São Paulo em 1961, começou o curso de direito na PUC-SP em 1965, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e destacou-se no movimento estudantil, segundo o registro do projeto Memórias da Ditadura. Foi preso em outubro de 1968, aos 22 anos, durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, quando presidia a União Estadual dos Estudantes de São Paulo. No ano seguinte, le teve o nome incluído em uma llista de quinze presos políticos trocados pelo governo militar, em setembro de 1969, pela libertação do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, sequestrado por militantes do MR-8 e da ALN.
Dirceu passou pelo exílio em Cuba, submeteu-se a cirurgia plástica e voltou clandestinamente ao Brasil em 1975 com o nome falso de Carlos Henrique Gouveia de Mello. A Lei da Anistia, em 1979, permitiu que retomasse a identidade original. Foi um dos fundadores do PT em 1980, deputado estadual por São Paulo entre 1987 e 1991, deputado federal entre 1991 e 1995, candidato derrotado ao governo paulista em 1994 (terceiro colocado) e novamente deputado federal a partir de 1999, com reeleição em 2002. Presidiu o partido de 1995 a 2002. O petista assumiu a Casa Civil no primeiro governo Lula em 1º de janeiro de 2003, cargo que ocupou até 21 de junho de 2005, quando o escândalo do Mensalão o forçou à demissão. Em dezembro daquele ano, a Câmara cassou seu mandato de deputado.
O julgamento da Ação Penal 470, no Supremo Tribunal Federal, em novembro de 2012, fixou pena de 10 anos e 10 meses de reclusão pelos crimes de formação de quadrilha (2 anos e 11 meses) e corrupção ativa em relação a nove parlamentares (7 anos e 11 meses, mais multa de 260 dias-multa a 10 salários mínimos cada).
A condenação por formação de quadrilha caiu em fevereiro de 2014, quando o STF acolheu embargos infringentes propostos pela defesa. Em 17 de outubro de 2016, o ministro Luís Roberto Barroso aplicou a Dirceu o decreto de indulto natalino assinado por Dilma Rousseff em 24 de dezembro de 2015, com base em informações prestadas pelo então juiz Sergio Moro e em parecer favorável do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. A aplicação extinguiu a punibilidade da pena remanescente de sete anos e onze meses por corrupção ativa.
A condenação da Lava Jato veio no mesmo ano. Em maio de 2016, Sergio Moro, então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, condenou Dirceu a 23 anos e 3 meses de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em 28 de outubro de 2024, o ministro Gilmar Mendes, do STF, anulou todos os atos processuais de Moro nesses casos, estendendo a Dirceu o reconhecimento de suspeição já aplicado, em março de 2021, ao processo do triplex do Guarujá, contra Lula. Foi essa decisão que restabeleceu formalmente os direitos políticos do ex-ministro e abriu caminho para a candidatura.
noticia por : Gazeta do Povo






