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Cuiaba - MT / 16 de outubro de 2026 - 18:31

Por que você não deveria montar sua carteira de aposentadoria antes de se aposentar?

Você tem 50 anos, pretende se aposentar aos 65 e decide que está na hora de começar a montar sua carteira de aposentadoria. Passa a procurar ações que pagam bons dividendos, fundos imobiliários com rendimentos mensais e títulos que distribuem cupons. Parece uma decisão prudente. Mas, pode ser justamente o contrário.

Se você ainda trabalha, recebe salário e reinveste tudo o que seus investimentos distribuem, não precisa de uma carteira que lhe pague renda. Precisa de uma carteira que faça seu patrimônio crescer. A diferença parece pequena, mas pode mudar completamente os ativos que você escolhe.

Durante a fase de acumulação, o que deveria importar é o retorno total do investimento, depois de custos, impostos e considerando o risco assumido.

Esse retorno é a soma de fluxos como dividendos, juros, aluguéis e da valorização. O formato pelo qual ele chega ao investidor é secundário enquanto aquele dinheiro não será utilizado para pagar suas despesas.

Considere dois investimentos de R$ 100 mil. O primeiro distribui R$ 8.000 ao longo do ano e termina valendo R$ 102 mil. O segundo não distribui nada e termina valendo R$ 110 mil. Desconsiderando impostos, ambos geraram R$ 10 mil para o investidor.

Um entregou parte do retorno em dinheiro; o outro incorporou tudo ao patrimônio. Para quem não precisa daquela renda, o que realmente interessa é quanto o patrimônio cresceu.

Essa distinção é importante porque a busca prematura por renda pode influenciar a construção da carteira de forma errada.

O investidor começa a privilegiar empresas maduras que distribuem parcela maior dos lucros, fundos imobiliários ou títulos com cupons simplesmente porque consegue enxergar o dinheiro entrando na conta. Enquanto isso, pode deixar de considerar investimentos com maior potencial de crescimento.

Isso não significa que ações de dividendos, fundos imobiliários ou títulos com cupons sejam investimentos ruins. Eles podem fazer parte de uma excelente carteira. O erro é escolhê-los porque produzem fluxo de caixa quando você ainda não precisa desse fluxo.

E o fluxo pode até ter um custo. Dependendo do investimento, receber renda antes de precisar dela pode antecipar impostos e obrigar o investidor a reaplicar um dinheiro que poderia continuar acumulando dentro do próprio investimento e gerar mais custos de transação. Na fase de construção, eficiência tributária e de custos também faz parte do retorno total.

Há ainda outro problema na ideia de construir hoje a carteira de renda que será utilizada daqui a dez ou vinte anos. Os ativos que são bons geradores de renda atualmente não necessariamente serão os melhores quando você se aposentar.

Empresas mudam, setores amadurecem, fundos alteram suas características, taxas de juros variam e novos investimentos aparecem. Não há razão para acreditar que a carteira adequada para gerar renda em 2046 seja composta pelos mesmos ativos que parecem adequados para essa função em 2026.

Por isso, o foco deveria estar na etapa em que você se encontra. Durante a construção do patrimônio, o objetivo é crescimento e retorno total, sempre respeitando o risco adequado. Quando começa o usufruto, surge outra necessidade: transformar parte daquele patrimônio em recursos capazes de financiar suas despesas.

Mesmo a aposentadoria não transforma todo o patrimônio em uma carteira de renda. Quem se aposenta aos 65 anos pode precisar daquele dinheiro até os 90 ou 100. Uma parcela financiará os próximos anos e deve privilegiar liquidez e previsibilidade. Outra talvez só seja utilizada daqui a dez, 20 ou 30 anos e, portanto, continua tendo um horizonte de longo prazo e com a visão de crescimento.

Isso significa que alguém recém-aposentado deveria ter simultaneamente uma carteira para viver hoje e outra voltada ao crescimento para financiar sua renda daqui a dez ou vinte anos.

Com o passar do tempo, parcelas do patrimônio destinadas ao futuro vão se aproximando do momento de utilização e podem ser gradualmente preparadas para gerar renda.

A lógica, portanto, não é passar de uma carteira de crescimento para uma carteira de renda em determinada idade. É administrar diferentes horizontes dentro do mesmo patrimônio. Mesmo depois da aposentadoria, apenas uma parte da carteira precisa estar preparada para produzir o fluxo necessário no presente.

Essa distinção também ajuda a entender por que não vejo muito sentido na recomendação de começar, dez ou 15 anos antes de se aposentar, a “montar a carteira de renda da aposentadoria”.

O investidor pode acabar construindo aos 50 anos a carteira que imagina precisar aos 65, sacrificando parte de um período ainda longo de acumulação e apostando que os ativos escolhidos hoje continuarão sendo os mais adequados no futuro.

Não monte hoje a carteira que você só precisará usar no futuro. Na fase de acumulação, pense em crescimento e retorno total. Na aposentadoria, pense em renda para o presente e crescimento para o futuro. Afinal, o dinheiro que você usará aos 85 anos ainda tem vinte anos para investir quando você se aposenta aos 65.

Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.


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noticia por : UOL

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Cuiaba - MT / 16 de outubro de 2026 - 18:31

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