Ao caminhar pelo centro de São Paulo, entre prédios históricos e o fluxo constante da rua 15 de Novembro, um painel digital chama atenção ao atualizar números em tempo real. O chamado Prisômetro, parte do programa Smart Sampa, exibe dados de segurança pública —prisões, capturas, entre outros. A cena se integra à paisagem urbana e transmite uma mensagem clara: a segurança pública passa a ser apresentada como números que se acumulam, como evidência de eficiência.
A lógica parece simples: transformar vigilância em sensação de controle. Em uma cidade coberta por milhares de câmeras, o monitoramento deixa de ser apenas ferramenta e passa a construir uma narrativa.
O problema é que essa narrativa seleciona o que pode ser visto e, assim, produz uma realidade parcial. Os números de produtividade ocupam o centro, enquanto outras dimensões permanecem invisíveis. O que deveria garantir transparência torna-se objeto de disputa.
As câmeras do Smart Sampa, espalhadas pela cidade, em uma de suas funções, comunicam-se diretamente com a polícia para ações imediatas.
Já as do Programa Olho Vivo, instaladas em uniformes e viaturas policiais, existem para assegurar a adequada atividade policial, mas muitas vezes são interrompidas ou manipuladas em momentos decisivos —mesmo diante da decisão do STF (Suspensão Liminar 1.696), que determinou gravação ininterrupta.
No fim, há câmeras e câmeras: umas reforçam a ideia de eficiência policial, outras, quando mal utilizadas, escondem abusos.
O discurso oficial do governo estadual, por sua vez, permanece centrado na repressão. Essa escolha constrói um sentido específico de segurança, reiterado diariamente, e é acompanhado pelo desinvestimento em políticas de prevenção.
O enfraquecimento dos mecanismos de controle da atuação policial e a oscilação nos investimentos e nos protocolos do uso das câmeras corporais aprofundam essa realidade desafiadora.
Nesse contexto, São Paulo consolida um patamar elevado de letalidade policial, revertido apenas temporariamente com o uso inicial das câmeras pelas polícias.
Relatórios anteriores já haviam apontado que, após a implementação do Programa Olho Vivo em 2020 —quando os números atingiram 814 mortes— houve queda expressiva, chegando a 419 em 2022. A partir de 2023, porém, após a mudança de governo, os números voltaram a crescer: 510 mortes em intervenções policiais naquele ano, 812 em 2024 e 834 em 2025.
Não se trata de desvios pontuais, mas da consolidação de um padrão. O retorno dos índices negativos evidencia que a redução era possível, mas foi deliberadamente abandonada.
Vale relembrar que o perfil dessas mortes não é aleatório. Embora haja dispersão geográfica, a identidade dessas vítimas revela desigualdades persistentes, majoritariamente formada por homens negros, jovens e de origem periférica.
O que emerge é um descompasso. De um lado, indicadores apontam queda em crimes relevantes, conforme dados recentes da SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo). De outro, consolida-se uma política baseada na violência letal.
Entre esses movimentos, constrói-se uma percepção pública moldada pelo que se evidencia e pelo que se silencia.
Assim, a letalidade responde menos à variação da criminalidade e mais a uma lógica de gestão da vulnerabilidade. Isso se torna ainda mais evidente quando parte significativa dessas mortes ocorre fora das situações clássicas de enfrentamento, fragilizando o discurso de combate direto ao crime e expondo os limites das explicações oficiais.
No fundo, a questão não é apenas quantos crimes diminuíram ou quantas pessoas foram presas. É que tipo de segurança está sendo produzida e para quem. Quando os mecanismos de controle são desmontados e a violência deixa de ser exceção, ela se converte em regra.
noticia por : UOL






