A Oncoclínicas pediu na segunda-feira (13) recuperação extrajudicial, afirmou a companhia em fato relevante. A empresa tenta renegociar um total de R$ 5,1 bilhões em dívidas com credores.
A rede de tratamento oncológico afirma que os atendimentos e operações seguem normalmente, já que o processo de recuperação extrajudicial não atinge clientes e fornecedores. O pedido de recuperação extrajudicial ainda será submetido à ratificação por uma assembleia de acionistas.
Segundo o documento a acionistas divulgado nesta terça-feira (14), a companhia tem a adesão de 37% dos credores em um plano para restruturar os débitos, prevendo aporte de acionistas, conversão de dívidas em papéis da empresa, refinanciamento de passivos ou alongamento dos prazos de pagamento.
Às 15h, os papéis da Oncoclínicas registravam alta de 23,68%, cotados a R$ 0,92. No mesmo horário, o Ibovespa subia 0,15%, aos 176.009 pontos.
No fato relevante também consta a rescisão de aluguel de imóvel na capital paulista, com multa de R$ 76 milhões já incluída na recuperação, e de um hospital projetado em Goiânia, com multa ainda a ser calculada.
Fundada em 2010 pelo oncologista Bruno Ferrari, a Oncoclínicas é a maior rede privada de tratamento oncológico do Brasil. São 142 unidades em 49 cidades. Segundo relatório recente, mais de 1.700 médicos especializados em oncologia integram a companhia, que realizou cerca de 593 mil tratamentos nos últimos 12 meses encerrados no 1° trimestre deste ano.
Em 2021, a companhia realizou a abertura de capital na bolsa e iniciou um movimento de expansão agressiva, com uma estratégia de aquisições de hospitais de alta complexidade. Isso fez com que a rede ampliasse significativamente a alavancagem.
O ponto de virada do período aconteceu em 2024, quando o Banco Master se tornou sócio relevante. Inicialmente, a companhia de Daniel Vorcaro adquiriu 10% de participação na Oncoclínicas com a compra de ações através dos fundos Nautilus e Montenegro. Em julho daquele ano, o Master consolidou uma fatia de 20,18% do capital social da rede com um aporte adicional pelos fundos Quíron e Tessália.
Recentemente, as compras do Master foram revistas no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) por configurarem gun jumping, termo utilizado para operações que superam o piso de 20% do controle sem que o órgão seja notificado.
Com a prisão de Vorcaro e a liquidação do Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, a Oncoclínicas entrou em uma espiral de problemas financeiros. Surgiram incertezas quanto aos verdadeiros detentores das ações do ex-banqueiro.
Inicialmente, a companhia anunciou que tinha mais de R$ 478 milhões em CDBs aplicados no banco e quase metade deste valor foi provisionado em balanço. Além disso, o BRB (Banco de Brasília), que tentou comprar o Master ao longo de 2025, surgiu como dono de 8,68% das ações decorrentes de operações prévias realizadas com o banco de Vorcaro.
Não bastassem os problemas gerados com a queda do Master, a Oncoclínicas ainda sofreu outro choque com a inadimplência da Unimed-Ferj, uma das principais fontes pagadoras da companhia. O rombo declarado é de R$ 861 milhões.
Na virada deste ano, a companhia iniciou uma rodada de negociações com os grupos Fleury e Porto, que avaliavam a compra da operação. O negócio, no entanto, dependia do tamanho da dívida reportada pela rede, que não poderia ultrapassar a marca dos R$ 2,5 bilhões.
O anúncio da negociação gerou novos desgastes internos, com acionistas minoritários reclamando sobre a potencial venda do negócio. Foram feitas ofertas pela Starboard, que pretendia aportar R$ 1 bilhão no negócio, além de uma contraproposta do fundo Mak Capital com aporte de R$ 500 milhões e uma troca no conselho.
Folha Mercado
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Em abril, a Oncoclínicas reportou um prejuízo consolidado de R$ 3,67 bilhões para o ano de 2025 e uma relação de dívida líquida sobre o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) que ficou em 4,3x.
Além do fim das negociações com Fleury e Porto, o resultado levou à quebra de covenant (cláusula contratual de proteção ao credor), que estabelecia uma relação de dívida de 3,5x fixado nas escrituras de debêntures.
Neste meio tempo, acionistas com participação relevante como a gestora Latache, pressionaram uma mudança no conselho da companhia. Isso levou à saída de Bruno Ferrari da presidência executiva da Oncoclínicas, em março, e à renúncia de Marcelo Gasparino da presidência do conselho, em abril. O médico Carlos Gil Moreira Ferreira assumiu como CEO interino.
Logo após reportar o tamanho real de sua dívida, a Oncoclínicas obteve na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) uma medida cautelar suspendendo por 60 dias cobranças e vencimentos antecipados. Na prática, o movimento já antecipava uma eventual recuperação extrajudicial.
Atualmente, o patrimônio líquido da Oncoclínicas é de R$ 621 milhões e o capital de giro disponível está negativo em 9 dias, segundo balanço mais recente. Na bolsa, as ações da companhia despencaram 79,2% nos últimos 12 meses e são negociadas abaixo de R$ 1,10.
Além da Latache, que detém 14,5% da rede, figuram como principais acionistas os fundos Josephina II e III, ligados à gestora norte-americana Centaurus e ao Goldman Sachs, com 17,6% das ações, e o BRB com 8,6%. O restante está em circulação no mercado (57,9%) e uma parte pequena está com a tesouraria da empresa (1,1%) e administração (0,06%).
noticia por : UOL





