Em 1982, Harrison Ford, no auge da fama depois de Star Wars e Indiana Jones, estrelou um filme sombrio sobre um detetive que caça androides fugitivos numa Los Angeles chuvosa e decadente. Chamava-se Blade Runner, virou clássico e definiu a cara da ficção científica pelas décadas seguintes. O que quase não se comenta é quem imaginou aquele mundo. O escritor americano Philip K. Dick passou a vida rondando uma única pergunta: o que faz alguém ser humano? Anos antes, em 1974, ele levou essa pergunta ao terreno mais explosivo possível, num conto abertamente contra o aborto que a ficção científica preferiu esquecer.
Ao lado de Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Dick, morto aos 53 anos, é um considerado uma das maiores referências do gênero no século XX. Publicou dezenas de romances e mais de cem contos, quase sempre na pobreza. De suas histórias férteis saíram dezenas de filmes e séries de sucesso, como O Vingador do Futuro, Minority Report e o próprio Blade Runner.
Nada em sua personalidade lembrava a de um conservador. Dick era um homem da contracultura. Era viciado em drogas, defendia pautas de esquerda e até foi vigiado pelo FBI durante a Guerra Fria. Também viveu atormentado por supostas crises místicas e paranoias, muito provavelmente decorrentes do seu uso desenfreado de entorpecentes. Sua obra inteira gira em torno desta inquietação. Em Blade Runner, sua busca pelo real assume a forma dos replicantes, seres artificiais tão parecidos conosco que só um teste de empatia os denuncia.
O que diz o conto
The Pre-Persons, algo como “As pré-pessoas”, saiu em outubro de 1974, pouco mais de um ano depois de a Suprema Corte americana legalizar o aborto no país inteiro, na decisão Roe versus Wade. No conto, Dick imagina um futuro em que o Congresso resolveu o impasse pelo seguinte decreto: o aborto é permitido até o momento em que a alma entra no corpo. E na ficção esse instante foi definido, de forma arbitrária, como aquele em que a criança se torna capaz de fazer álgebra, por volta dos 12 anos. Antes disso, ela é apenas uma pré-pessoa.
A consequência é aterrorizante e propositalmente lógica. Uma caminhonete percorre os bairros recolhendo crianças que os pais não querem mais. Então, elas são levadas a um centro de abortos, onde serão eliminadas se ninguém as reclamar. O protagonista adulto, um ex-aluno de matemática de Stanford, se entrega de propósito, alegando ter esquecido toda a álgebra que sabia. Se o critério vale, ele também é descartável pela lógica do Estado tirânico do conto. Dick vira a lógica do sistema contra o próprio sistema.
À primeira vista, é estranho que o criador de androides com questões existenciais tenha escrito um panfleto pró-vida. Dentro da obra dele, porém, o conto é quase inevitável. A pergunta de The Pre-Persons é exatamente a de seu maior clássico: quem conta como pessoa, e quem decide isso. Dick sugere que definir a pessoa por uma capacidade, seja a de fazer álgebra, seja a de sentir empatia, é sempre traçar uma linha. E toda linha traçada pode ser deslocada para excluir mais alguém.
Reação agressiva
O conto provocou justamente o que se poderia esperar. A escritora feminista Joanna Russ, uma das vozes mais respeitadas da ficção científica da época, mandou a Dick, segundo o relato dele, a carta mais raivosa que já recebera. A autora afirmava que costumava se oferecer para “espancar” quem defendia ideias como aquela. Vieram também cartas anônimas destilando o mesmo ódio, algumas de organizações a favor do aborto.
Dick não recuou. No posfácio que escreveu para o conto anos depois, Dick não fingiu neutralidade: assumiu que a história era abertamente uma defesa de uma causa. Lamentou ter ofendido quem pensava diferente, mas fez questão de separar a cortesia da convicção. “Pelo bem das pré-pessoas, não me arrependo”, escreveu, deixando claro que sentia pelas pessoas magoadas, não pela posição que tomara. Em seguida resumiu a própria vida de encrenqueiro com uma franqueza desarmante: “Drogas, comunismo e agora uma posição contra o aborto. Eu realmente sei como me meter em confusão.”
A pergunta que incomoda
O conto nunca virou filme, ao contrário de tantos outros de Dick, e raramente aparece nas coletâneas e nos perfis que celebram o autor. É difícil não ligar esse esquecimento ao seu tema. O meio literário e o cinema, majoritariamente à esquerda, têm pouca vontade de resgatar uma peça que entrega munição ao outro lado, ainda que assinada por um dos seus.
Fica a ironia. Dick é reverenciado hoje por ter perguntado, antes de quase todo mundo, quem merece ser tratado como gente, defendendo os androides e os simulacros. The Pre-Persons faz a mesma pergunta sobre o feto, e é a única vez em que a resposta dele incomoda quem o celebra. Talvez seja por isso que continua na gaveta.
noticia por : Gazeta do Povo






