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Cuiaba - MT / 14 de setembro de 2026 - 18:27

Na IA, possibilidades não são profecias e dúvidas não são certezas

A festa acaba em 2030? Dizem que sim. A festa, aqui, é a humanidade inteira. A limpeza, essa, será obra da inteligência artificial, cada vez mais autônoma, cada vez mais poderosa, cada vez mais letal.

A nós, pobres símios, sobram mil dias, mais coisa menos coisa. O que você pretende fazer com eles?

Antes de abandonar o trabalho, o casamento, a casa e a higiene, um aviso: pode não acontecer. Notícias do apocalipse não nasceram hoje. Muito menos o medo e a esperança que o apocalipse alimenta na alma dos homens.

Da esperança falarei a seguir. O medo é mais comum: todas as sociedades projetam no apocalipse a ameaça que mais as inquieta. E, nesse quesito, há uma diferença abissal entre o mundo pré e pós-industrial.

Da Antiguidade aos alvores da Idade Moderna, foi a Bíblia que marcou o compasso: os Quatro Cavaleiros poderiam aparecer a qualquer altura para devastar o mundo com invasões, guerras, fomes e pestes. A experiência empírica do homem antigo e medieval só confirmava esse horizonte deprimente.

A Revolução Industrial expandiu o temor por via da técnica: sim, as guerras, as fomes e as pestes continuaram a pairar sobre o nosso destino, mas as máquinas tomaram conta do filme até os nossos dias.

Do holocausto nuclear aos bugs informáticos; do aquecimento global (antropogênico, claro) à inteligência artificial, os nossos apocalipses são incomparavelmente mais sofisticados que os temores primitivos dos antecessores.

Mas o apocalipse não desperta apenas medo. Existe esperança nesse momento revelador. Os Quatro Cavaleiros antecipam a Nova Jerusalém —uma promessa tão poderosa que, na Idade Média, alimentou o frenesi de movimentos milenaristas dispostos a purificar o mundo para apressar o reino dos céus.

E quando o reino deixou de ser dos céus, passou por vezes a ser do proletariado: o apocalipse capitalista, que Marx profetizou e Lênin cumpriu, seria o primeiro passo para uma sociedade sem classes. Foi, de fato, o fim do mundo —para 100 milhões de almas.

Mesmo hoje, por entre os temores da inteligência artificial, não faltam apocalípticos que aguardam a aceleração final da tecnologia rumo a um futuro pós-humano.

Nos últimos tempos, tenho lido com interesse —um interesse clínico, entenda— os textos de Nick Land, um dos nomes centrais do chamado “iluminismo das trevas” e influência no Vale do Silício. A salvação do mundo, para ele, não está em frear os excessos da máquina tecnocapitalista.

Pelo contrário: a sua “sede de colapso” só pode ser saciada pela aceleração das forças destrutivas e criativas do próprio capitalismo. A superação do homem pela máquina é um dos cenários possíveis e desejáveis.

No fundo, Nick Land está como os futuristas de um século atrás: fascinado pela velocidade e pela vertigem, acreditando, como dizia Marinetti no seu “Manifesto”, ser do nosso interesse “entregar-nos inteiramente ao Desconhecido, não por desespero, mas apenas para saciar os poços profundos do Absurdo”.

Onde estão os enfermeiros quando mais precisamos deles?

Não é de admirar que os futuristas tenham visto no fascismo nascente a resposta às suas preces. Também não é de espantar que a vertente “neorreaccionária” associada a Land, desprezando a “decadente” democracia liberal, prefira agora soluções mais radicais.

A festa acaba em 2030?

A festa pode acabar a qualquer momento porque, lamento informar, ninguém vai sair daqui vivo. Além disso, serei o último a subestimar a capacidade humana para a estupidez em larga escala.

Mas a histeria dos últimos dias com a inteligência artificial traz ecos de uma história familiar: nossa tendência para preencher grandes zonas de angústia e incerteza com narrativas apocalípticas coerentes.

Por outro lado, há traços de tecnopessimismo que parecem reproduzir, de forma demasiado perfeita, vários dos “pecados mortais” que o roboticista Rodney Brooks identificou nas nossas previsões sobre o futuro da tecnologia.

Entre eles, está a “antropomorfização” das máquinas através de categorias humanas (“querer”, “desejar”, “temer”), a transformação da ignorância em magia (ou, no caso, vilania) e uma tendência irresistível para escrever roteiros de filmes de Hollywood.

Isso não significa que a IA seja inofensiva. Nem sequer significa que cenários extremos devam ser ignorados.

Significa, apenas, que possibilidades não são profecias —e que dúvidas não são certezas.

Entre completar frases e exterminar a humanidade, quando foi exatamente que entraram em cena as intenções homicidas?

É uma progressão de carreira notável, mesmo para os padrões do Vale do Silício.

noticia por : UOL

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Cuiaba - MT / 14 de setembro de 2026 - 18:27

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