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Cuiaba - MT / 13 de agosto de 2026 - 12:38

Mendonça prega de colete à prova de balas, mas não poupa a fé de desgaste político

Usando um colete à prova de balas, o ministro André Mendonça pregou em algumas ocasiões na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, episódio que voltou a atrair atenção para sua atividade religiosa.

O que passa pela cabeça do ministro ao aceitar o cargo de pastor auxiliar é algo que diz respeito apenas a ele e a Deus. Mas, como se trata de uma figura pública, a questão ultrapassa a esfera privada e vira assunto de interesse público.

Para fiéis, o gesto de Mendonça pode soar como convicção e humildade. Afinal, trata-se de profissional com uma agenda pesada, que ainda assim reserva tempo para a vida religiosa. A modéstia estaria em alguém que, mesmo ocupando cargo de altíssima responsabilidade, se dispõe a pregar, como qualquer outro pastor evangélico.

Para os críticos, porém, o quadro é outro. A presença de um ministro do Supremo em um púlpito evangélico não é apenas uma expressão de fé. É também um episódio que expõe a mistura entre religião, poder e imagem pública. Nesse sentido, o problema não é a crença em si, mas o que ela passa a representar quando vem associada a um cargo de Estado.

A fé de André Mendonça ganhou destaque desde sua indicação para o STF por Jair Bolsonaro. Na ocasião, o então presidente o apresentou como “terrivelmente evangélico”. Não se tratava apenas de descrever a filiação religiosa do indicado, mas de carimbar uma identidade confessional com cores políticas.

Por ocasião da sabatina, no Senado, Mendonça tentou corrigir essa imagem e disse ser “genuinamente evangélico”, em vez de “terrivelmente evangélico”. A mudança de expressão não apaga o fato de que sua trajetória pública foi marcada desde o início pelo trânsito entre o universo da fé e o da política. É difícil separar o que Bolsonaro uniu na terra, principalmente em tempos polarizados.

Surge, então, o dilema fundamental: até que ponto a atuação pastoral pública de um ministro do Supremo é conciliável com a percepção de neutralidade que o cargo impõe?

A resposta não precisa ser ideológica nem hostil à religião. Não se trata de defender que autoridades públicas deixem de frequentar igrejas ou viver sua fé. O ponto é outro: quando alguém ocupa um posto de enorme poder institucional, certas manifestações deixam de ser apenas pessoais e passam a ter efeito público, simbólico e político.

No caso de Mendonça, esse efeito é ainda maior porque a sua presença religiosa não surgiu no vazio. Ela foi, em parte, celebrada e usada politicamente na própria ascensão ao cargo. A imagem do “terrivelmente evangélico” mostrou como a fé pode ser transformada em selo de identidade política.

Há, no entanto, um risco em transformar esse debate numa implicância contra um ministro evangélico. A presença de ministros do STF em púlpitos seculares para proferir palestras em eventos do mundo empresarial precisa ser questionada à luz dos melhores interesses republicanos. Não fazê-lo, para ser bíblico, significa “coar o mosquito e engolir o camelo”. A democracia não pode funcionar com régua dupla.

É por isso que o caso merece mais do que uma reação imediata de aprovação ou reprovação. Ele obriga a pensar no tipo de fronteira que a democracia precisa traçar entre fé e poder. Não porque a religião deva ser expulsa da vida pública, mas porque o Estado não pode ser capturado por nenhuma identidade religiosa.

No fim, a questão não é se André Mendonça tem direito de ser pastor. Tem. A questão é outra: um ministro do Supremo deve continuar exercendo, em público, uma função pastoral enquanto ocupa uma das cadeiras mais importantes do país?

Talvez a resposta mais prudente seja reconhecer que há momentos em que a liberdade religiosa pede discrição, não espetáculo. E que, em posições tão sensíveis, a melhor forma de blindar a fé e o cargo pode ser justamente não expô-los demais.

noticia por : UOL

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Cuiaba - MT / 13 de agosto de 2026 - 12:38

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