Seattle (EUA)
| The New York Times
Quatro das maiores empresas do setor de tecnologia estabeleceram um novo recorde de gastos no último trimestre, enquanto corriam para desenvolver inteligência artificial. Os gastos levaram a um novo e preocupante marco: a maioria delas está gastando mais dinheiro em data centers do que gera com suas operações.
Nas últimas duas semanas, Amazon, Microsoft, Google e Meta disseram estar a caminho de gastar mais de US$ 720 bilhões neste ano em data centers e outros investimentos de capital —cerca de três vezes o valor desembolsado há apenas dois anos.
E a expectativa é que todas gastem ainda mais no próximo ano. Os investimentos são tão grandes que o boom da IA responde por boa parte da resiliência da economia dos Estados Unidos.

Vista aérea da obra de data center do Google em Nevada
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Daniel Cole – 9.out.26/Reuters
A onda de compras levou as empresas a correr em busca de recursos para financiar suas ambições, recorrendo a empréstimos e, em alguns casos, à venda de mais ações para obter o dinheiro necessário. Embora seus principais negócios continuem, em geral, saudáveis, essas medidas inquietaram investidores, que se perguntam quais apostas darão retorno.
O Google divulgou resultados decepcionantes na quarta-feira (28) e, no fechamento dos mercados nesta quinta-feira (29), as ações haviam caído mais de 12%, apagando os ganhos acumulados no ano.
Em seguida, após a Amazon divulgar resultados que mostraram gastos elevados, suas ações também recuaram, cerca de 5% nas negociações após o fechamento. Na semana passada, as ações da Meta caíram 7% depois que seus resultados mostraram que ela estava consumindo tanto caixa que precisou emitir novas ações para captar recursos.
“Pequenas diferenças estão causando muita volatilidade”, disse David Tsui, analista de crédito de tecnologia da S&P Global Ratings. Segundo ele, ainda pode haver vários anos de incerteza, porque “os gastos são feitos agora, mas boa parte do retorno só virá daqui a alguns anos”.
Não são apenas algumas das maiores empresas de tecnologia que estão fazendo essa aposta. Oracle e SpaceX elevaram drasticamente gastos e endividamento, e seus investimentos de capital agora se aproximam rapidamente dos níveis registrados por rivais muito maiores.
Os investidores têm acompanhado cada vez mais um indicador conhecido como fluxo de caixa livre, que mede quanto dinheiro resta a uma empresa após pagar tanto os custos cotidianos quanto os novos investimentos de capital. Em todas as empresas, exceto a Microsoft, o fluxo de caixa livre ficou negativo —um sinal de quanto elas apostam que seus investimentos em IA darão resultado.
Se as empresas continuarem aumentando os gastos mais rapidamente do que conseguem ampliar as vendas e a geração de caixa, “ficaremos um pouco mais preocupados”, disse Tsui.
Nesta quinta, a Amazon tornou-se a mais recente gigante de tecnologia a divulgar seus resultados trimestrais. A empresa registrou receita de US$ 201,9 bilhões, alta de 12% em relação ao ano anterior, enquanto o lucro caiu ligeiramente, para US$ 20,7 bilhões. Ambos ficaram abaixo das expectativas dos investidores.
A divisão de computação em nuvem da Amazon registrou seu maior crescimento em quase cinco anos, com alta de 39% nas vendas, para US$ 46 bilhões. Andy Jassy, CEO da Amazon, disse aos investidores acreditar que a unidade crescerá mais de 40% ao ano até 2028.
Na quarta, a Alphabet, controladora do Google, revelou que, pelo segundo trimestre consecutivo, apresentou fluxo de caixa livre negativo por causa de seus gastos, embora as vendas de seu negócio de computação em nuvem tenham mais do que dobrado.
Mas seu negócio de buscas, fonte de grande parte do caixa livre da empresa, teve desempenho abaixo do esperado, reforçando as preocupações dos investidores de que os chatbots de IA possam enfraquecer seu principal negócio de publicidade.
Os investimentos de capital do Google mais do que dobraram, chegando a US$ 51 bilhões. A empresa também sinalizou que pode ter mais de US$ 1 trilhão em compromissos futuros com contratos de arrendamento e outras obrigações.
Na semana passada, pela primeira vez desde pouco após abrir o capital, em 2012, a Meta também informou aos investidores que seu fluxo de caixa livre estava negativo. A empresa ainda elevou ligeiramente a previsão de investimentos de capital e revelou mais de US$ 800 bilhões em contratos de arrendamento futuros adicionais e outros compromissos.
O CEO Mark Zuckerberg disse aos investidores que aproveitar ao máximo esses investimentos será essencial para transformar o sucesso inicial do Muse, agente pessoal de IA da Meta, em um negócio enorme e lucrativo.
“Queremos garantir que tenhamos construído capacidade computacional suficiente para atender ao que acreditamos que será um público de mais de 1 bilhão de pessoas”, afirmou.
Várias dessas empresas estão emitindo novas ações, vendendo títulos e contraindo empréstimos para sustentar seus gastos.A Meta informou que captaria até US$ 95 bilhões com a venda de ações para financiar suas ambições em IA. A SpaceX disse ter obtido US$ 40 bilhões em empréstimos para adquirir chips especializados em IA.
A Microsoft registrou crescimento em seus negócios de nuvem e IA, ao mesmo tempo que manteve os custos sob controle. A empresa afirmou que terá fluxo de caixa livre positivo pelo menos até meados do próximo ano e que, se precisar recorrer a recursos adicionais para levantar dinheiro, fará isso.
“Temos muitas opções para recorrer aos mercados financeiros quando isso fizer sentido e as condições forem atraentes”, disse Amy Hood, diretora financeira da empresa.
A receita trimestral da Microsoft foi de US$ 92,3 bilhões, alta de 19%, e o lucro cresceu 32%, para US$ 36,6 bilhões. As vendas do Azure, sua principal oferta de computação em nuvem e IA, aumentaram 48%, e a Microsoft disse aos investidores que o crescimento será ainda maior no trimestre atual.
Nesta quinta, a Microsoft informou que captará US$ 25 bilhões por meio de sua primeira emissão de novos títulos em quase uma década. Embora as ações da empresa tenham subido nas negociações após o fechamento na quarta-feira, elas recuaram ligeiramente na quinta-feira.
As empresas de tecnologia estão “em uma disputa existencial por participação de mercado”, disse Will Sommer, economista especializado no mercado de tecnologia da empresa de pesquisa Gartner. “Elas estão dispostas a assumir prejuízos para se tornarem as principais fornecedoras de um mercado que, acreditamos, valerá trilhões de dólares.”



