Às 7h da quarta-feira (10), o despertador da professora Gabriela Garcia, 43, voltou a tocar. Ela levantou o banco para se sentar, tirou seu laptop de uma mochila preta e enviou um link aos alunos para mais um dia letivo. Era sua sexta noite na fila por gasolina, em La Paz, e o quarto dia de aulas dentro do carro.
“Coloco um filtro no fundo da tela para os alunos não perceberem que estou dentro do carro. Talvez eles estranhem o barulho dos carros e das pessoas que passam aqui na rua”, disse a professora do ensino médio.
Depois que as aulas acabam, às 13h, começa a etapa mais entediante do dia —esperar, numa fila que não se move, a chegada de combustível. “Passo os dias vendo as redes sociais. É o que me entretém um pouco.”
Para carregar os aparelhos, ela diz que paga 2 bolivianos por hora de carga, o equivalente a R$ 1 por hora, a uma senhora que é dona de um pequeno comércio na região, em Sopocachi, um dos bairros da classe média de La Paz.
É também durante o dia que ela aproveita para fazer suas necessidades básicas. Ao sair do carro, pega uma bolsinha rosa onde guarda uma escova e pasta de dentes e um lencinho umedecido, que fez as vezes de chuveiro nos últimos dias. “Aqui em frente, tem um banheiro público, onde eu consigo escovar os dentes e ir ao banheiro. O problema é que lá não tem ducha.”
Depois de o sol se pôr, ela pula para o banco de trás, pega uma muda de roupas levada por sua irmã e tampa parte dos vidros do carro com um protetor solar de para-brisa. “Me troco durante a noite, quando não há tanta visibilidade.”
Apesar de ser uma das poucas mulheres que enfrenta a fila por gasolina, Garcia diz que se sente segura dentro do seu veículo. A amizade que fez com outros motoristas lhe garante alguma proteção, diz.
Há mais de 40 dias a Bolívia convive com protestos que pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, no cargo há pouco mais de sete meses. Devido ao bloqueio das estradas —uma das formas de protesto típicas do país andino— algumas cidades sofrem com o desabastecimento de produtos básicos.
Diante da crise, desde o mês passado as aulas nas regiões afetadas passaram a ser ministradas em formato virtual.
Sem gasolina suficiente para voltar para casa, em El Alto, a cerca de 15 km de La Paz, a professora decidiu esperar. “O mais difícil é ficar longe dos meus filhos. Sei que eles estão em boas mãos, mas é complicado estar longe”, diz Garcia, mãe solo de dois filhos, um menino de 13 e uma menina de 6 anos, que ficaram sob os cuidados dos avós maternos.
Ela entrou na fila do combustível no último dia 4 com a esperança de, naquela mesma data, abastecer seu veículo. “Durante a madrugada, a fila estava andando. Achei que ia conseguir abastecer, mas não tinha entendido que, na verdade, estava dando voltas no quarteirão. Errei meus cálculos.”
Ao contrário da maioria das pessoas que aguardam na fila, ela não depende do transporte como meio de subsistência. Ainda assim, diz que, em uma cidade tomada por confrontos entre manifestantes e policiais, o carro lhe garante alguma segurança.
“O entorno da minha casa e do trabalho está muito violento. Já aconteceu de jogarem pedras na van [o transporte público da cidade, que funciona em modelo de cooperativa] em que estava uma colega. Então, com o carro eu consigo desviar dos pontos de bloqueio. Também é importante para que eu possa buscar meus pequenos na escola.”
Cercanías
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo
Na noite de quarta, depois de seis dias de espera, finalmente chegou a vez dela. “Consegui colocar gasolina”, escreveu em uma mensagem de texto enviada à Folha.
Nem todos, no entanto, tiveram a mesma sorte. O taxista José Aurélio, 49, estava há cinco dias sem rodar, parado na fila, quando conversou com a reportagem. Ele conta que um tanque cheio dura cerca de dois dias de trabalho —depois disso, tem de encarar a fila novamente.
“Este mês eu vou ter de pegar um empréstimo para pagar as contas. A situação está muito difícil. Eu admito que, nas últimas semanas, pensei em largar o emprego e começar a roubar, mas não sirvo para isso”, afirma.
A gasolina é, justamente, uma das razões que explicam a ira dos opositores contra Rodrigo Paz. No segundo mês de mandato, o presidente acabou com um subsídio de 20 anos aos combustíveis, o que praticamente dobrou o preço do produto nas bombas.
Além disso, no começo do ano, o governo boliviano importou de Argentina, Chile e Paraguai uma gasolina de má qualidade que ficou conhecida como “gasolina basura” [“gasolina lixo”]. O produto teria danificado milhares de veículos bolivianos.
Na segunda-feira (8), a seguradora UNIBienes Seguros y Reaseguros Patrimoniales S.A., controlada pelo estatal Banco Unión, informou que quase 67 mil motoristas haviam aberto reclamações devido a problemas causados pela “gasolina basura”. Quase 28 mil tinham recebido indenizações que, somadas, chegavam a cerca de 86 milhões de bolivianos (R$ 43 milhões, aproximadamente).
Por suspeita de participação na fraude, três gerentes da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), a estatal petroleira do país, foram presos.
Como possível resposta às manifestações, o presidente Rodrigo Paz sancionou a lei que estabelece as regras para decretar um estado de exceção. A implementação do dispositivo permitiria a atuação das Forças Armadas na contenção dos atos.
Para que entre em vigor, Paz precisaria decretar estado de emergência, e o Congresso teria até 72 horas para ratificar a medida. Durante a cerimônia de assinatura da lei, ele descartou renunciar ao cargo. “Somos um governo que governará até 2030”, disse.
noticia por : UOL






