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Cuiaba - MT / 29 de julho de 2026 - 0:24

Crédito imobiliário surpreende e cresce 23% no semestre, mesmo com juros altos

Nem os juros em patamar elevado esfriaram o mercado imobiliário brasileiro. O volume de concessões de crédito para compra e construção de imóveis encerrou o primeiro semestre de 2026 com um desempenho acima do esperado, movimentando R$ 180,9 bilhões.

O resultado representa uma alta de 23% em relação aos R$ 147,1 bilhões registrados no mesmo período de 2025, segundo dados divulgados pela Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) nesta terça-feira (28).

Ao todo, cerca de 850 mil imóveis foram financiados entre janeiro e junho, somando as operações com recursos do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e de carteiras livres, com compradores atraídos pela valorização dos imóveis como investimento e pela escalada do preço dos aluguéis.

Os números indicam que o primeiro semestre deste ano foi significativamente mais forte do que o de 2025, contrariando previsões de desaceleração diante da Selic (taxa básica de juros) elevada e do encarecimento do crédito. A taxa está em 14,25% ao ano e passou parte do primeiro semestre na faixa de 15%.

Segundo o presidente da Abecip, Michel Cury, o desempenho registrado na concessão de crédito imobiliário pelo mercado no primeiro semestre leva a Abecip a revisar as estimativas para o ano. Em janeiro, a entidade projetava expansão de 16% nas concessões e volume aproximado de R$ 375 bilhões, mas afirma que uma nova previsão será divulgada nas próximas semanas diante dos resultados acima do esperado.

Para Rodrigo Werneck, estrategista-chefe da Cupola, ecossistema de gestão imobiliária, a decisão de compra de imóvel tem sido empurrada por uma combinação de aluguéis em disparada, encarecimento de lançamentos e valorização contínua dos imóveis.

“O fator determinante é a valorização dos imóveis novos, decorrente da inflação da construção civil. Quando o imóvel novo fica mais caro, o imóvel pronto se valoriza junto em função da demanda crescente”, afirma. “Em setores de mercado como o econômico, este movimento é ainda mais visível por conta da ampliação das faixas do Minha Casa Minha Vida”, diz o especialista.

Werneck diz ainda que a escassez de imóveis disponíveis para locação, com o valor do aluguel escalando por meses sucessivos, ajuda a acelerar a decisão de compra.

Segundo o Índice FipeZAP de junho de 2026, o preço da locação acumulou alta de 5,24% no primeiro semestre e 9% nos últimos 12 meses, superando com folga a inflação do período (IPCA de 4,64% e IGP-M de 3,16%). 21 das 22 capitais registraram alta nos preços de locação residencial nos últimos 12 meses, com destaque para Aracaju (+25,37%), Teresina (+20,78%) e Brasília (+15,48%).

Em junho, o preço médio nacional nas 36 cidades monitoradas atingiu R$ 53,79 o m², chegando a R$ 71,60/m² em unidades de um dormitório. São Paulo registrou o maior preço médio de aluguel (R$ 64,98/m²), seguida por: Recife (R$ 64,06/m²); Belém (R$ 63,03/m²); Florianópolis (R$ 60,82/m²) e Rio de Janeiro (R$ 59,87/m²).

O movimento aparece também nos números da Caixa Econômica Federal, principal financiadora da casa própria no país. O banco alcançou no mês passado, pela primeira vez, a marca de R$ 1 trilhão na carteira de crédito imobiliário. Somente no primeiro trimestre deste ano, a Caixa liberou R$ 64,2 bilhões em novos financiamentos imobiliários, alta de 30,6% em relação ao período homólogo.

O destaque veio das operações financiadas com recursos da poupança (SBPE), tradicionalmente utilizadas pela classe média. As concessões para aquisição e construção atingiram R$ 93,7 bilhões, avanço de 29% sobre o primeiro semestre de 2025.

O desempenho ocorre após o Banco Central afrouxar, no ano passado, as regras de compulsório da poupança, liberando parte dos recursos que antes permaneciam retidos e ampliando a capacidade dos bancos de conceder financiamentos imobiliários.

Dentro desse segmento, o crédito destinado à construção mais do que dobrou, passando de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões. A Abecip, porém, afirma que a comparação ocorre sobre uma base deprimida do início de 2025 e representa um retorno aos níveis observados entre 2021 e 2024.

Já os financiamentos para aquisição de imóveis cresceram 12%, alcançando R$ 67,2 bilhões. Mais de 70% das operações envolveram imóveis usados, e quase 130 mil unidades foram financiadas pelo SBPE no semestre.

As operações com recursos do FGTS (fundo de garantia) também mantiveram ritmo forte. O volume contratado atingiu R$ 77,6 bilhões, alta de 22%, impulsionado principalmente pelo Minha Casa, Minha Vida, em especial a faixa 3. Segundo a Abecip, o mercado ainda está aprendendo a trabalhar com a faixa 4, criada no ano passado para atender parte da classe média.

Em sentido contrário, as linhas com recursos livres (que não usam recursos direcionados da poupança nem do FGTS) recuaram 8%, alcançando R$ 9,6 bilhões frente aos R$ 10,4 bilhões do ano anterior, refletindo o maior custo de captação no mercado.

A poupança, no entanto, não tem crescido no mesmo ritmo da demanda por crédito. Nos últimos cinco anos, a caderneta acumulou retirada líquida de R$ 273 bilhões. Apenas no primeiro semestre deste ano, o saldo ficou negativo em R$ 31 bilhões, embora tenha melhorado em relação às retiradas de R$ 38 bilhões observadas um ano antes. O saldo permaneceu praticamente estável, passando de R$ 762 bilhões para R$ 764 bilhões.

A carteira de crédito imobiliário vinculada ao SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) chegou a R$ 601 bilhões, correspondendo a 121% dos recursos direcionáveis da poupança, evidenciando que os bancos vêm recorrendo cada vez mais a fontes alternativas de recursos para sustentar a expansão das operações.

Cury afirmou que a poupança continuará exercendo papel estratégico, mas já não consegue, isoladamente, acompanhar toda a expansão da demanda.

O fôlego do crédito, segundo a entidade, ainda esbarra no custo do dinheiro. O patamar de juros influencia o custo de captação das instituições e pode limitar a velocidade de transmissão de eventuais cortes para os financiamentos habitacionais.

HOME EQUITY GANHA ESPAÇO

De acordo com a Abecip, o crédito que tem o imóvel como garantia de pagamento (CGI), conhecido como ‘home equity’, registrou alta de 30,9% no primeiro semestre de 2026, somando R$ 6,67 bilhões em concessões. O estoque total da carteira alcançou R$ 34,1 bilhões.

Essa modalidade funciona como um empréstimo pessoal ou empresarial de longo prazo no qual o tomador utiliza um imóvel quitado —ou em fase final de quitação— como garantia do pagamento. Por contar com um bem de alto valor respaldando a operação, o risco para os bancos e instituições financeiras diminui drasticamente, o que permite oferecer condições muito mais vantajosas do que o crédito pessoal tradicional ou o cheque especial.

Segundo a Abecip, o tomador do CGI em 2026 contratou, em média, R$ 267 mil, com prazo de pagamento de 13 anos e utilizando um terço do valor total do imóvel como garantia.

noticia por : UOL

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