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Brasil sempre existiu como utopia, mesmo antes de existir como nação

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Brasil sempre existiu como utopia, mesmo antes de existir como nação

No grego, “u-topos” seria simplesmente um “não lugar”. Foi nesse sentido que Thomas Morus usou o título “Utopia” em 1516, quando escreveu em latim um livro que tratava de uma sociedade idílica, que (ainda) não existia. E foi a partir daí que o uso moderno da palavra foi passando a se referir também a uma quimera: mera fantasia.

É triste, mas essa descrição que passa de um ideal para a ridicularização de um sonho é também a história de uma desistência.

“Distopia” vem mais tarde. O prefixo “dis” também é grego, com sentido de “mal, inadequado”, e o termo teve primeiro uso médico, se referindo à localização anômala de um órgão. “Ectopia”, com um prefixo que significa “fora de”, é hoje o termo mais comum para isso.

Foi só em 1969 —ainda que em inglês esse uso viesse de um século antes— que “distopia” passou a significar um lugar em que tudo é tão terrível.

Todo mundo conhece a história de que o Brasil tem esse nome por causa do pau-brasil, que, por sua vez, tem esse nome por causa da cor de “brasa”. Como toda história bem contada, essa não é cem por cento certa.

Há quem aposte numa conexão com o verbo francês “brésiller”, com o sentido de esfarelar. Mas isso talvez esteja pelo avesso, porque o verbo pode ter vindo do nome da madeira, que tinha que ser esmigalhada para gerar o corante.

Mas a mais curiosa de todas as conexões é com a mítica terra de Hy Brasil, mencionada desde o começo do século 13 como uma ilha paradisíaca que só surge no horizonte uma vez a cada sete anos. Essa terra se encaixa na tradição dos mitos das Ilhas Afortunadas, lugares maravilhosos, de abundância, felicidade e música. (Sempre música.)

O nome é difícil de investigar. Ele pode vir mesmo do termo latino “brasile”, aplicado a outras espécies de árvores de madeira vermelha antes de os portugueses chegarem aqui. Pode também provir do nome de um clã irlandês. Ou sabe-se lá mais o quê.

Mas o fato é que essa ilha mágica, mítica, estaria a oeste da Irlanda, perdida no Atlântico: exatamente como nós. O Brasil, de certa forma, já existia antes mesmo de existir como nação. E existia como sonho. Como utopia.

Chico Buarque definiu como poucos um projeto utópico real, inacabável e necessário ao acrescentar um “mais” na sua versão da canção “The Impossible Dream”, de Mitch Leigh e Joe Darion, que passou a dizer “sonhar mais um sonho impossível”.

O crítico literário Roberto Schwarz pôs o dedo na ferida ao apontar o hábito das elites brasileiras de passar por cima da dura realidade do povo com suas “ideias fora de lugar”. Distópicas.

Pois bem. Uma vez a cada quatro anos surge no nosso horizonte a chance de escolher. Apostar num Brasil que “não cabe no quintal de ninguém” ou num projeto que pretende se avassalar a uma potência estrangeira. O Brasil da nossa utopia real, inacabável, necessária, ou aquele que acena para a bandeira norte-americana. Ectópico, distópico, nefasto. Outro dia eu te falo da palavra “nefasto”.

Hoje, só te digo: vá e vote. Não acredite na voz que diz que não faz diferença. Recuse a distopia, o erro, a milícia. Recuse lamber as botas de Trump.

Pense de que lado da história você quer ficar. Pense qual é o “nosso” lugar. Autônomo, grande e (ainda) em criação. Ou errado, deslocado, atravessado e perdido. Utopia, distopia.

Vá e vote.


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noticia por : UOL

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