Para quem vê de fora, o Prêmio Capes de Tese é apresentado como o “Oscar da ciência nacional” — a consagração que o Ministério da Educação dá aos melhores trabalhos de doutorado das universidades brasileiras. A comparação é pomposa, mas as pesquisas escolhidas nos últimos anos têm sido marcadas por conceitos, metodologias e conclusões que muitas vezes soam como comédia involuntária.
O resultado preliminar de 2026, divulgado pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) no final de agosto, reúne 50 teses premiadas e dezenas de menções honrosas. Alguns desses trabalhos, no entanto, chamam a atenção por motivos que não têm exatamente a ver com excelência.
A Gazeta do Povo selecionou dez desses trabalhos (todos teses de doutorado), levando em conta a carga ideológica, o vocabulário empolado e, em alguns casos, passagens que fariam qualquer leitor comum se perguntar se aquilo é mesmo um estudo financiado com dinheiro público.
Veja a seguir o que a nossa suposta elite intelectual anda premiando nos bastidores.
1) “Pornô maleável”: Performances corporificadas e infraestruturas digitais no camming
Categoria: Comunicação e Informação
Autora: Maria Júlia Alencastro Veiga
Instituição: Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)
Resumo: A pesquisa investiga o mercado de sexo virtual ao vivo em plataformas como Chaturbate e Câmera Privê, acompanhando por cerca de dois anos as performances, as interações e a forma como o dinheiro circula nesses ambientes. O estudo também ouviu pessoas que atuam nesse mercado para compreender as condições e as dificuldades da atividade.
A partir desse material, a autora mistura referências do marxismo, da fenomenologia (estudo da experiência vivida e de como percebemos o mundo) e dos estudos feministas para descrever o que acontece diante das câmeras. Performances, fetiches e até vibradores controlados à distância, chamados de “teledildônicos”, ganham nomes como “ressonância carnal”, “visualidade háptica” e “acumulação primitiva da vergonha”.
Trecho: “Essa conversa de menos de uma hora custou cento e cinquenta reais, o espectador deve colocar o saldo previamente e no momento que o saldo acaba o chat é cortado. […] Confesso que, como bolsista da Capes que reservou o orçamento da pesquisa do próprio salário, às vezes foi difícil me concentrar na conversa, uma vez que um contador com a quantidade de saldo fica constantemente visível e diminuía a cada minuto.”
Procurada pela reportagem da Gazeta do Povo, a orientadora Gabriela Machado Ramos de Almeida explicou que a pesquisa envolveu cerca de dois anos de observação e entrevistas. Segundo ela, o trabalho procura compreender tanto as condições da atividade quanto o funcionamento das plataformas. A orientadora também destacou a trajetória anterior da autora nos estudos sobre pornografia e o doutorado-sanduíche realizado por ela na University of Turku, na Finlândia, sob supervisão de Susanna Paasonen, pesquisadora de referência nos estudos sobre pornografia e internet.
2) Sopros e Travessias: culturas afrodiaspóricas em composição de uma educação criativo-decolonial em oficinas de pífano
Categoria: Artes
Autora: Mayara Araujo do Amaral
Instituição: Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)
Resumo: Segundo a tese, o ensino tradicional de música nas universidades brasileiras é racista, elitista e promove “epistemicídios” (termo usado para definir a eliminação de formas de conhecimento). Como alternativa, a autora propõe oficinas de pífano (um tipo de flauta) e uma educação “decolonial” — ou seja, que questiona o peso das referências culturais europeias. Detalhe: os pífanos são construídos com materiais reutilizados, como canos de PVC e rolhas de vinho.
Só que a proposta não se limita ao ensino de música. Para Mayara, as aulas também devem abrir espaço para questões como gênero, sexualidade, raça, classe social e o lugar de onde o aluno vem.
Trecho: “Ao longo desta tese, optei pelo uso do gênero feminino como forma de generalização. Essa escolha não ignora a presença de pessoas de outros gêneros, mas constitui um gesto político e simbólico de afirmação do feminino como centralidade possível na construção de conhecimentos, rompendo com a tradição do masculino universal.”
3) Cartografias Posit(H)ivas: ativismos digitais do HIV/AIDS
Categoria: Linguística e Literatura (Linguística Aplicada)
Autor: Renan da Ponte Castelo Branco
Instituição: Universidade Estadual do Ceará (UECE)
Resumo: Repleta de chavões progressistas, a tese analisa dancinhas, memes, selfies e “publis” (posts pagos ou patrocinados) de 11 influenciadores que decidiram falar abertamente sobre o HIV no Instagram. Para descrever esse movimento, o autor recorre ao filósofo sul-coreano Byung-Chul Han e à ideia de “enxame digital”, usada para definir grupos de indivíduos que atuam juntos nas redes sem formar uma organização tradicional.
A partir daí, o ativismo nas redes passa a ser analisado por conceitos como “psicopolítica neoliberal” e “sujeito-empresa-de-si”.
Trecho: “Importa ressaltar, finalmente, que essa narrativa não é desenhada a partir do pressuposto de uma suposta objetividade científica. Quem a escreve é o corpo de um homem nordestino, cearense, professor, gay e, em meio a todas essas formas socialmente perceptíveis, um corpo permeado por muitos devires e vozes.”
Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo, Renan da Ponte Castelo Branco explicou que a pesquisa nasceu do contraste entre os avanços médicos no tratamento do HIV e a permanência do estigma social associado à doença. Segundo ele, o trabalho acompanhou ativistas no Instagram entre 2021 e 2024 e depois realizou entrevistas com alguns deles. A pesquisa também mostra como o ativismo mudou ao migrar para as redes sociais, com pessoas que passaram a falar sobre HIV a partir de suas próprias experiências, fora dos formatos tradicionais de mobilização.
4) A militarização na Política Nacional de Educação Básica Pública e na gestão escolar: o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (2019-2023)
Categoria: Educação
Autor: Alexandre Marinho Pimenta
Instituição: Universidade de Brasília (UnB)
Resumo: O trabalho analisa o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares a partir do materialismo histórico-dialético, método de análise inspirado no pensamento de Karl Marx. O autor conclui que a presença de militares desfigurou a escola pública e criou um regime de disciplina voltado ao “adestramento” dos alunos.
É aí que a coisa fica interessante: embora faça afirmações sobre mudanças profundas no comportamento dos estudantes, a pesquisa não incluiu visitas às escolas do programa nem entrevistas diretas com os alunos. Em uma nota de rodapé, o próprio autor admite: “A qualidade e a efetividade de tais instâncias não são verificadas na pesquisa”.
Trecho: “O regime disciplinar militarizado alterou a dimensão repressivo-disciplinar das Escolas Cívico-Militares com reforço de hierarquias, mecanismos e práticas disciplinares, punitivas, concorrenciais e de adestramento, em afronta aos direitos das crianças e dos adolescentes e na busca por formar estudantes dóceis, úteis, obedientes e passivos, segundo uma concepção autoritária e reprodutivista de educação.”
5) Digital Patriots and Proud Pariahs: How the Brazilian Far Right Mobilises Foreign Policy Discourse on Social Media
Tradução da autora: “Patriotas digitais, párias com muito orgulho: como a extrema direita brasileira mobiliza a política externa em seu discurso nas redes sociais”.
Categoria: Ciência Política e Relações Internacionais
Autora: Anna Carolina Raposo de Mello
Instituição: Universidade de São Paulo (USP) / King’s College London (KCL)
Resumo: Desenvolvida em regime de dupla titulação entre universidades de dois países (por isso o título em inglês), a pesquisa tenta mostrar como o bolsonarismo transformou a política externa em parte de sua identidade.
O texto parte do pressuposto de que a extrema direita é a vilã da história recente. A partir de publicações nas redes sociais, Anna Carolina identifica uma “agenda reacionária comum” entre movimentos de direita considerada radical de diferentes nações — e afirma que, no Brasil, questões internacionais passaram a ser associadas diretamente a “afetos políticos domésticos”.
Nesse diagnóstico ainda entram globalismo, teorias da conspiração, desinformação e a criação de “inimigos difusos”. Mas o título da pesquisa já vem com o veredito pronto: “patriotas digitais” são “párias”. Se você se encaixa no primeiro rótulo, o segundo vem junto.
Trecho: “Em meio ao crescente autoritarismo e à desilusão com as instituições democráticas, a extrema direita tem se consolidado como uma força política que desestabiliza democracias ao redor do mundo.”
6) Formação intercultural de professores de Matemática do segundo ciclo do ensino secundário no contexto sociocultural Umbundu/Bié numa perspectiva da Etnomatemática
Categoria: Educação Matemática (Ensino)
Autor: Ezequias Adolfo Domingas Cassela
Instituição: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)
Resumo: A pesquisa busca reformular o ensino de matemática em Angola, questionando o que chama de “hegemonia eurocêntrica” por meio da Etnomatemática (uma abordagem que considera os diferentes modos de cada cultura calcular, medir e resolver problemas). O foco está no povo Umbundu, uma das principais comunidades do centro-sul do país, com forte presença na província do Bié.
Mas a proposta vai além de incluir referências culturais nas aulas. O autor defende que esses conhecimentos não precisam ser validados pela matemática acadêmica para serem considerados legítimos. É nesse ponto que surge uma contradição: o trabalho rejeita o ensino tradicional, mas recorrer a categorias já estabelecidas para interpretar situações do cotidiano.
A travessia de um rio de canoa, por exemplo, é associada à geometria diferencial, ao cálculo de derivadas e às equações diferenciais. Na cestaria, o autor identifica até um “PI outro”, que poderia dialogar com o número π. Como bônus, aparecem no texto diálogos de campo com indicações como “[risos]”, “[gargalhadas]” e até “[kkkk]”.
Trecho: “Tratamos de levar uma leitura de matemática formal, sem respeitar a sabedoria cultural […]. Manifestamos demonstrações matemáticas e hegemônicas, que de certa forma, invisibilizaram a cultura local dos pesquisados […] A ação em questão, na perspectiva do Programa Etnomatemática, remeteu-nos a uma posição de colonizador”.
Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo, Ezequias Cassela defendeu que a tese não pretende transformar os conhecimentos do povo Umbundu em exemplos da matemática acadêmica, mas colocá-los em diálogo com ela. Como exemplo, ele citou o método usado na construção de colmeias, que utiliza a abertura entre o polegar e o indicador como referência de medida. Sobre os diálogos com “[gargalhadas]” e “[kkkk]”, Cassela afirmou que essas marcas ajudam a preservar a voz e a atmosfera dos encontros.
7) Entre águas, peneiras e baquaras: Saberes docentes interculturais e contracoloniais em licenciaturas indígenas na FAINDI/UNEMAT, Brasil e na UPN, México
Categoria: Educação
Autora: Amanda Pereira da Silva Azinari
Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Resumo: O estudo aborda a formação de professores a partir da trajetória de 13 docentes da FAINDI, a Faculdade Indígena Intercultural da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), e da UPN, Universidade Pedagógica Nacional do México.
Para isso, a autora adota a “pesquisa narrativa” e chama o próprio trabalho de “corpo-tese” — conceito que mistura pesquisa, vida e formação e procura romper com fronteiras mais tradicionais da produção acadêmica. Até a estrutura do trabalho muda: os capítulos viram “Tramas” e “Fios Narrativos”.
Amanda também relata experiências de campo, como uma semana viajando de carro com professores (que ganha o nome de “Etapa Intermediária Emergencial”). E descreve o sol, os cheiros, os sabores e até as “picadas dos insetos” como parte da produção do conhecimento. O vocabulário ainda inclui expressões como “artesania relacional” e uma perspectiva “corpórea-intercultural-ambiental-espiritual-histórica”.
Trecho: “Considerar o corpo e suas experiências me permitiu coletivizar a constituição de saberes, convivendo com os formadores e formadoras e com os povos indígenas sob o sol escaldante mato-grossense, nas picadas dos insetos, os cheiros, provando dos sabores-saberes.”
8) Por uma teologia desútil e vagabunda: uma degustação teodecolonial da poesia de Manoel de Barros
Categoria: Ciências da Religião e Teologia
Autor: Ivan Kiper Malacarne
Instituição: Faculdades EST (Escola Superior de Teologia, São Leopoldo-RS)
Resumo: A tese sugere uma leitura teológica da poesia do mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014) para questionar a tradição cristã e o que o autor considera o excesso de razão na teologia acadêmica. A proposta é chamada de “teologia desútil” e aposta justamente naquilo que não serve para nada, como o inútil, o resto, o lixo e o ócio. A própria pesquisa é apresentada como uma “degustação teológica” da poesia.
Para explicar como isso funciona, o autor recorre à antropofagia e transforma a produção de conhecimento em uma espécie de processo digestivo. A poesia é “devorada”, as teorias são “mastigadas” e o resultado é transformado em “novos bolos fecais teológicos”.
A linguagem escatológica chega à própria teologia, com a defesa de que é preciso usar “bosta” para limpar a Palavra de Deus. Nos agradecimentos, a Capes também aparece. Segundo o autor, o financiamento permitiu que ele fosse um “vagabundo profissional em tempo integral”.
Trecho: “Posto isso, opta-se, como alimento, a teopoética, permitindo devorar a poesia de Manoel e nutrir-se dela para produzir novos bolos fecais teológicos capazes de fertilizar novos discursos, experiências e práticas.”
9) Crianças no Movimento Sem Terra e a política como “rito de iniciação”
Categoria: Educação
Autora: Franceila Auer
Instituição: Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Resumo: O trabalho acompanha a rotina de crianças em um assentamento do MST no Espírito Santo para entender como elas são introduzidas desde cedo na militância ideológica do movimento. Mas a autora não trata essa formação como um problema. Franceila diz que a educação dos chamados “Sem Terrinha” deve prepará-los para a continuidade do movimento e vê o envolvimento dos pequenos como um desafio ao “adultocentrismo” (a ideia de que adultos devem decidir o que é melhor para as crianças).
A tese também registra a doutrinação em situações inocentes do cotidiano. Em uma quadrilha junina, por exemplo, até as tradicionais marcações de dança ganham novos sentidos: o “anarriê” vira uma referência à “luta contra o fascismo”, enquanto o cumprimento das damas é associado à resistência das mulheres e à defesa da diversidade. Tudo isso, para Franceila, é educação.
Trecho: “Por volta do meio-dia, as crianças, cujas famílias não estavam ali, precisaram se deslocar no ônibus escolar para as escolas e de lá para as suas casas. Elas disseram que ficaram tristes, pois desejavam continuar até o final do dia no evento. Das crianças que permaneceram, vimos Ayla, Bruna e Fernando. Elas ficaram com as famílias, brincaram, comeram doces, participaram do forró e presenciaram uma roda de conversa com deputados eleitos por um partido político.”
10) Cosmopolitas do Terceiro Mundo: Redes laborais, comunicação militante e culturas transnacionais de solidariedade entre Moçambique e o Brasil no final da Guerra Fria (1970-1980)
Categoria: História
Autor: Julimar Mora Silva
Instituição: PUC-Rio
Resumo: O trabalho resgata a trajetória de brasileiros que foram para Moçambique nos anos 1970 e 1980 com o objetivo de ajudar na construção do regime socialista da Frelimo (a Frente de Libertação de Moçambique, que havia chegado ao poder depois da independência do país).
O autor apresenta essa experiência como uma história de solidariedade, militância e cooperação entre povos. Só que a vida dos estrangeiros tinha algumas vantagens. Eles podiam comprar produtos importados em lojas exclusivas, usar moeda internacional, ter carro e viajar para a Europa. Na capital Maputo, até as praias tinham áreas separadas para brasileiros, russos e cubanos.
A tese menciona essas contradições, mas as transforma em “assimetrias”, “microtensões” e “tensões produtivas”. Em um dos depoimentos, um historiador admite que sabia da violência do regime marxista-leninista da Frelimo, mas preferiu não escrever sobre isso porque sua experiência profissional no país era “muito bem recebida” e “muito frutífera”. A solidariedade revolucionária, pelo visto, tinha seus limites.
Trecho: “Apesar das desigualdades legadas pelo colonialismo, a República Popular de Moçambique tinha à disposição um sistema de saúde gratuito e um conjunto de benefícios sociais que os cooperantes e colaboradores sabiam aproveitar muito bem. Do ponto de vista de alguns deles, os benefícios sociais que desfrutavam em Moçambique compensavam problemas não resolvidos no Brasil.”
A Gazeta do Povo buscou o posicionamento dos demais autores citados nesta matéria (diretamente ou por meio de seus orientadores), mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.
noticia por : Gazeta do Povo






