Os dois têm muitas coisas em comum. Caru Alves de Souza, a cineasta, é filha de uma também cineasta, Tata Amaral, e seguiu a carreira da mãe não porque tinha as portas abertas nem porque o trabalho era fácil, mas sim porque carregava consigo a missão de ocupar um lugar na indústria audiovisual sendo uma mulher diretora, coisa rara até hoje.
Giscard Luccas, filho de uma atriz, Nadir Fernandes, e de um dono de salas de cinema, o empresário Francisco José Lucas Neto, de 97 anos, seguiu os passos do pai também como missão. A dele era manter o cinema aberto para não desalojar seu público, formado principalmente por idosos LGBT, que vão a salas de cinema assistir a filmes pornôs héteros, em que o sexo acontece entre homens e mulheres, mas lá dentro exercem sua sexualidade, seja ela qual for, do jeito que quiserem.
Um nunca tinha encontrado o outro, seguiam seus caminhos e enfrentavam suas batalhas por conta própria, até que o roteiro que Caru escreveu com Josefina Trotta, “Corações Solitários”, virou um projeto com financiamento para ser filmado, e ela e sua produtora, Rafaella Costa, saíram atrás da locação ideal.
“O Cine Dom José [no centro de SP] pairava na minha imaginação há muito tempo. Eu tentava entender como é que esse cinema pornô existia, como funcionava”, conta Caru. “Ando muito pelo centro e comecei a ir para o bar da frente, tomava uma cerveja, um café, e ficava olhando para o cinema, vendo o movimento e pensando: ‘Acho que esse filme tem que ser feito aqui’”, lembra a diretora.
“Um dia as duas bateram na minha porta”, afirma Giscard, falando de Caru e Rafa, a produtora. Ele usava uma das imensas salas nos andares de cima do cinema como seu escritório. Outro espaço do prédio servia de sala de ensaio para seu grupo de teatro infantil. Giscard é ator, como sua mãe, por paixão. Virou empresário de cinema por circunstância.
“Quando a gente veio pra cá e o Giscard começou a contar a história dele, eu lembro que olhava para a Rafa e a gente falava: ‘Gente, o que é isso? Parece que eu estou escrevendo a história desse cara’. E eu já tinha escrito a história do filme”, diz a cineasta.
Em “Corações Solitários”, duas irmãs herdam um cinema pornô, o Cine Astro, após a morte do pai.
Uma delas, Gilda, escrita especialmente para a atriz que a interpreta, Gilda Nomacce, passou a vida toda no cinema, mora e trabalha nele e tem um apego especial pelo negócio.
A outra, Julieta, interpretada pela atriz e cantora Buhr, volta ao Brasil depois de muitos anos morando no exterior para o velório do pai, e, quando se depara com o que virou agora seu, uma sala decadente de filmes pornográficos, quer vendê-lo o quanto antes e retomar sua vida longe daqui. As duas irmãs entram em atrito.
O apego de Gilda ao cinema encontra paralelo no de Giscard, que mantém o Dom José aberto para preservar o espaço de convivência de seus frequentadores.
Originalmente chamado Cine Jussara, o cinema foi inaugurado em 1955 e chegou a ter mais de mil lugares. Com a decadência dos cinemas de rua e do centro de São Paulo, a sala passou do circuito comercial para o cinema erótico. Segundo Giscard, a família manteve o espaço funcionando mesmo com a mudança de público.
Hoje em dia o Cine Dom José é o centro nervoso de uma pequena comunidade, junto com o bar da frente e a galeria do outro lado da rua. Mas Giscard começou a alugar o espaço também para festas, porque manter um cinema pornô aberto acaba atrapalhando o próprio negócio ao afastar patrocinadores e eventuais parceiros. Além disso, a especulação imobiliária não para de pressionar os donos de imóveis deste porte.
Quando recebeu a proposta de alugar o espaço para as filmagens de “Corações Solitários”, que começaram há três semanas, Giscard se viu em um dilema: “O que eu faço com os meus velhinhos?”, como ele chama, de brincadeira, o público que frequenta sua sala.
A saída foi quase tão cinematográfica quanto a trama que está sendo rodada. Giscard e sua família também são donos de outro imóvel, um antigo cinema chamado Cine Oásis, que estava alugado há 20 anos para uma igreja evangélica ligada ao pastor R. R. Soares. “Mas o contrato com eles acabou um pouco antes de o filme começar a ser rodado, e eles toparam sair. Então transferi o cinema pornô para lá”, conta o empresário.
Teve 20 dias para montar, do zero, uma sala de 158 lugares, recuperando poltronas antigas que estavam guardadas, adaptando o espaço e levando os equipamentos necessários para a exibição dos filmes que seu público tanto adora. Foi avisando seus frequentadores com flyers e cartazes, mas até hoje, volta e meia aparece alguém no Dom José querendo entrar para ver um filme.
A equipe orienta os frequentadores que ainda procuram o Dom José que agora o endereço para ver filmes pornográficos é outro, Praça Júlio de Mesquita, 123. 550 metros, ou oito minutos a pé, do Cine Dom José.
“O filme [‘Corações Solitários’] é um drama, mas tem muita comédia também. Ninguém faz piada, mas tem situações absurdas que acontecem”, conta Caru. A reportagem acompanhou a filmagem de uma dessas cenas: um espectador sai do cinema de braguilha aberta, seguido por uma prostituta que cobra, aos berros, o pagamento.
Essa é uma das situações que já aconteceram na vida real do Cine Dom José, e que Giscard contou à cineasta, que incorporou na história. Uma outra, mais bizarra, é a de um espectador que morreu na sala de cinema, e só foi descoberto quando as sessões do dia terminaram, as luzes foram acesas e o tal do homem não se mexia.
“A gente não tem sessão que nem cinemas normais, que uma acaba, sai todo mundo, depois começa a outra”, conta Giscard. “Os filmes ficam passando direto, um emendado no outro, e as pessoas entram quando quiserem e ficam o tempo que precisarem. Não acendemos as luzes entre um filme e outro.”
“Essa história de gente morrer não aconteceu nem uma vez só, foram umas três ou quatro”, lembra o proprietário. “O duro é que quase sempre as famílias não têm ideia do que esses senhores estão fazendo no meio da tarde”.
Uma outra cena que a reportagem acompanhou dá um toque de nostalgia festiva à trama. Numa dessas chuvas torrenciais que caem toda hora na cidade começa a chover dentro do cinema, em cima do público e escorrendo pela parede lateral.
Gilda, a irmã que sempre cuidou do Cine Astro, percebe a água entrando e quase desmaia numa das cadeiras vermelhas da plateia. Sua irmã, Julieta, acha a imagem romântica, pega um balde no chão, que estava lá para recolher a água de uma goteira, e começa a dançar e cantarolar “Singin’in the Rain”, como Gene Kelly no clássico “Cantando na Chuva”, de 1952.
Logo os outros espectadores que estavam na sala se juntam a Julieta, cantando e dançando, e acaba todo mundo ensopado, mas feliz.
“Corações Solitários”, ou “Cine Astro”, que a equipe começa a considerar um bom título para o longa, está no meio das filmagens. Faltam três semanas. Depois disso tem um monte de coisas para acontecer, pós-produção, edição, finalização, e tudo toma tempo e dinheiro.
Mas a torcida geral é que o filme fique pronto até o segundo semestre do ano que vem. E, segundo a diretora, “ele tem jeito de festivais, que dão uma visibilidade importante para a obra”. Além de Buhr e Gilda Nomacce, o elenco também reúne Leilah Moreno, Grace Gianoukas, Mestre Ivamar, Carlota Joaquina, Iara Jamra, Paula Pretta e Pedro Noizyman.
E Giscard Luccas, que faz o papel de um fiscal da prefeitura que vai até o cinema e determina que ele seja fechado. Aqui, a arte tirou um sarro da vida.
com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS
noticia por : UOL






