Usando um colete à prova de balas, o ministro André Mendonça pregou em algumas ocasiões na Igreja Presbiteriana de Pinheiros, episódio que voltou a atrair atenção para sua atividade religiosa.
O que passa pela cabeça do ministro ao aceitar o cargo de pastor auxiliar é algo que diz respeito apenas a ele e a Deus. Mas, como se trata de uma figura pública, a questão ultrapassa a esfera privada e vira assunto de interesse público.
Para fiéis, o gesto de Mendonça pode soar como convicção e humildade. Afinal, trata-se de profissional com uma agenda pesada, que ainda assim reserva tempo para a vida religiosa. A modéstia estaria em alguém que, mesmo ocupando cargo de altíssima responsabilidade, se dispõe a pregar, como qualquer outro pastor evangélico.
Para os críticos, porém, o quadro é outro. A presença de um ministro do Supremo em um púlpito evangélico não é apenas uma expressão de fé. É também um episódio que expõe a mistura entre religião, poder e imagem pública. Nesse sentido, o problema não é a crença em si, mas o que ela passa a representar quando vem associada a um cargo de Estado.
A fé de André Mendonça ganhou destaque desde sua indicação para o STF por Jair Bolsonaro. Na ocasião, o então presidente o apresentou como “terrivelmente evangélico”. Não se tratava apenas de descrever a filiação religiosa do indicado, mas de carimbar uma identidade confessional com cores políticas.
Por ocasião da sabatina, no Senado, Mendonça tentou corrigir essa imagem e disse ser “genuinamente evangélico”, em vez de “terrivelmente evangélico”. A mudança de expressão não apaga o fato de que sua trajetória pública foi marcada desde o início pelo trânsito entre o universo da fé e o da política. É difícil separar o que Bolsonaro uniu na terra, principalmente em tempos polarizados.
Surge, então, o dilema fundamental: até que ponto a atuação pastoral pública de um ministro do Supremo é conciliável com a percepção de neutralidade que o cargo impõe?
A resposta não precisa ser ideológica nem hostil à religião. Não se trata de defender que autoridades públicas deixem de frequentar igrejas ou viver sua fé. O ponto é outro: quando alguém ocupa um posto de enorme poder institucional, certas manifestações deixam de ser apenas pessoais e passam a ter efeito público, simbólico e político.
No caso de Mendonça, esse efeito é ainda maior porque a sua presença religiosa não surgiu no vazio. Ela foi, em parte, celebrada e usada politicamente na própria ascensão ao cargo. A imagem do “terrivelmente evangélico” mostrou como a fé pode ser transformada em selo de identidade política.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Há, no entanto, um risco em transformar esse debate numa implicância contra um ministro evangélico. A presença de ministros do STF em púlpitos seculares para proferir palestras em eventos do mundo empresarial precisa ser questionada à luz dos melhores interesses republicanos. Não fazê-lo, para ser bíblico, significa “coar o mosquito e engolir o camelo”. A democracia não pode funcionar com régua dupla.
É por isso que o caso merece mais do que uma reação imediata de aprovação ou reprovação. Ele obriga a pensar no tipo de fronteira que a democracia precisa traçar entre fé e poder. Não porque a religião deva ser expulsa da vida pública, mas porque o Estado não pode ser capturado por nenhuma identidade religiosa.
No fim, a questão não é se André Mendonça tem direito de ser pastor. Tem. A questão é outra: um ministro do Supremo deve continuar exercendo, em público, uma função pastoral enquanto ocupa uma das cadeiras mais importantes do país?
Talvez a resposta mais prudente seja reconhecer que há momentos em que a liberdade religiosa pede discrição, não espetáculo. E que, em posições tão sensíveis, a melhor forma de blindar a fé e o cargo pode ser justamente não expô-los demais.
FolhaJus
A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha
noticia por : UOL




