Quando a seleção brasileira foi eliminada da Copa do Mundo de 2026, uma discussão curiosa surgiu nas redes sociais. O argumento era uma provocação: o declínio do futebol brasileiro estaria acompanhando o declínio do catolicismo no país.
Segundo essa interpretação, a substituição gradual de uma cultura católica na seleção pela evangélica neopentecostal teria contribuído para o desaparecimento do chamado jogo bonito. A tese despertou um debate que mistura religião, identidade nacional e futebol.
Na Copa de 2002, por exemplo, o técnico Luiz Felipe Scolari levava imagens de Nossa Senhora para o vestiário nos dias de jogo. Esse comportamento também marcou a atuação de Zagallo junto à Seleção de 1970.
A hipótese chama atenção porque parte de um fato difícil de ignorar. Das 23 Copas do Mundo disputadas até hoje, 18 foram vencidas por países de tradição católica: Uruguai, Brasil, Itália, Argentina, França e Espanha – a atual campeã.
Outros quatro títulos pertencem à Alemanha, dividida entre católicos e protestantes — mas que tem no lado católico a sua força futebolística. Por décadas, o Bayern de Munique, da região da Baviera (de maioria católica), foi a espinha dorsal da seleção alemã.
Em 1954, o “Milagre de Berna” foi protagonizado por, entre outros jogadores, “Fritz” Walter, “Max” Morlock, “Hans” Schäfer e Helmut Rahn. Todos eles oriundos de regiões onde a maioria da população era católica. Foi assim também na conquista de 20 anos depois, com cinco dos principais nomes do time — “Sepp” Maier, Josef Dieter, Paul Breitner, “Gerd” Müller e o “Kaiser” Franz Beckenbauer — vindos da Baviera.
A única exceção clara à regra é a anglicana Inglaterra, campeã em 1966 em uma Copa marcada por polêmicas como um gol marcado por uma bola que não teria entrado por completo na meta alemã na final.
E quando se amplia essa lista para os finalistas, percebe-se a mesma presença marcante de países da Europa e da América Latina moldados, durante séculos, pela cultura católica. As últimas três finais, por exemplo, reuniram França, Croácia, Argentina e Espanha. Mas essa análise significa necessariamente uma relação de causa e efeito?
Nenhum estudo acadêmico demonstrou que professar a fé católica torna uma sociedade melhor no futebol. Mas há algo que precisa ser levado em conta: tradições religiosas ajudam a moldar culturas nacionais, e culturas nacionais influenciam a forma como determinados esportes são praticados.
O elo entre a cruz e a bola, portanto, seria indireto e muito mais complexo do que simplesmente atribuir vitórias ou derrotas à religião.
O que a Igreja Católica fala sobre o futebol?
Em 2018, o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida publicou o documento “Dar o Melhor de Si”, o primeiro texto do Vaticano inteiramente dedicado ao esporte. O futebol, junto a outras modalidades, é retratado como um instrumento de formação integral da pessoa.
Para a Igreja, então, o futebol tem potencial de desenvolver amizade, solidariedade, criatividade, disciplina e, por que não, a busca da excelência. O documento reforça que o esporte deve preservar sua dimensão lúdica e comunitária, evitando transformar-se apenas em espetáculo comercial ou mecanismo de produção de resultados.
É uma visão ufanista, é verdade, já que a valorização do jogo como experiência humana parece cada vez mais distante do que se vê no esporte de alto rendimento moderno. Não que o Vaticano não acredite que vencer é importante, mas a busca pela vitória nunca pode encobrir valores como fraternidade, beleza, cooperação e desenvolvimento da pessoa.
No final das contas, essa forma de ver o futebol, em particular, e o esporte como um todo, nada mais é do que uma compreensão profundamente influenciada pela tradição humanista do catolicismo europeu.
Seriam os católicos mais criativos e propensos ao futebol do que os evangélicos?
Brasil, Argentina, Uruguai, Itália, Espanha, Portugal e França transformaram o futebol em parte de sua identidade nacional. Nestes centros históricos do futebol – e da cultura católica – jogar bola nunca foi apenas praticar um esporte.
Brincar na rua, ocupar espaços públicos, criar vínculos comunitários e desenvolver habilidades técnicas desde a infância era a regra. Sob essa cultura, surgiram ícones da improvisação nos gramados, como Pelé, Garrincha, Maradona, Ronaldinho Gaúcho, Zidane, Iniesta e tantos outros.
A criatividade individual e sua influência sobre a inteligência coletiva, então, seriam características exclusivas das culturas católicas? Seriam os protestantes mais “quadrados” e disciplinados, e por isso, sem criatividade? Talvez isso explicaria a dificuldade dos Estados Unidos, país de maioria protestante, de atingir alguma relevância no futebol, a despeito dos bilhões de dólares investidos nos esportes.
O aparente paradoxo parece ter raízes mais estruturais do que religiosas. Nos EUA, há outras quatro modalidades esportivas muito mais valorizadas do que o “soccer”: o futebol americano, o basquete, o hóquei no gelo e o baseball. Essas ligas concentram os maiores salários, a maior audiência da TV, a maior cobertura de mídia e, por consequência dos anteriores, de mais prestígio. Ao futebol sobra apenas uma parcela muito pequena do talento esportivo bruto disponível.
Difícil, então, cravar que uma sociedade majoritariamente evangélica possa estar fadada ao fracasso esportivo, ainda mais quando se leva em conta a contribuição de alguns países predominantemente protestantes para o esporte.
A Holanda, por exemplo, nunca venceu uma Copa do Mundo. Por lá, os católicos representam cerca de 20% da população. Mesmo assim, veio dos Países Baixos a ideia do “futebol total”, cristalizada na forma de jogar da “Laranja Mecânica” comandada por Johan Cruijff em 1974.
Ele, aliás, declarou publicamente que não acreditava em Deus e quando jogou no Barcelona chegou a dizer que “todos os jogos [na Espanha] deveriam terminar em empate”, já que de ambos os lados havia fervorosas orações feitas pelos 22 titulares.
Espanha segue com religião – e futebol – em alta
A religiosidade segue em alta entre os espanhóis. O herói do título de 2026, o atacante Ferrán Torres, deu uma entrevista na qual falou sobre a importância de Deus em sua vida. “Tenho um crucifixo e uma imagem da Virgem Maria; no fim das contas, acho que ter uma fé tão forte me dá muito apoio — é algo muito importante para mim”, comentou o atacante espanhol, eleito o melhor jogador da final contra a Argentina de Messi.
O técnico espanhol, Luis de la Fuente, também fez questão de reforçar sua fé antes, durante e depois das partidas. Em uma entrevista concedida antes da semifinal contra a França, o treinador revelou que rezou todos os dias não para vencer a Copa do Mundo, mas para agradecer a vida.
“Acho que seria injusto pedir [a Deus] para que ajude mais a mim e não o meu adversário. Peço outras coisas, saúde principalmente. E que Deus me dê opções para que eu siga lutando. Com saúde sou um guerreiro. Sem saúde, teria um problema”, disse.
Então qual é a relevância da religião no esporte? A cultura religiosa participa sim da formação de valores, símbolos e práticas culturais de um povo. Associar o sucesso no futebol unicamente ao catolicismo é uma hipótese sedutora, principalmente porque é uma resposta simples para um problema bem mais complexo.
No caso do Brasil, por exemplo, a mais longa seca de títulos em uma Copa do Mundo parece menos uma consequência da quantidade de jogadores que expressam a fé evangélica e mais resultado de uma gestão caótica da CBF, da formação ineficiente dos atletas e da evolução do esporte como um todo, entre outros muitos fatores.
Mais do que buscar qual denominação religiosa forma os melhores jogadores, o importante é lembrar que o futebol é mais do que um simples jogo de bola. Se o catolicismo ajudou a moldar algumas das seleções mais influentes do planeta bola, isso provavelmente ocorreu menos por questões doutrinárias e mais porque participou, durante séculos, da construção de identidades nacionais nas quais o jogo passou a ser uma linguagem comum.
O documento do Vaticano acerta ao insistir que o esporte revela muito da visão que uma sociedade possui sobre o próprio ser humano. O futebol expressa maneiras de viver, de educar crianças, de organizar cidades, de celebrar vitórias e enfrentar derrotas. Essa sim é uma hipótese histórica plausível – e fascinante.
noticia por : Gazeta do Povo






