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Cuiaba - MT / 20 de junho de 2026 - 8:07

Para fundador da Wikipédia, textos gerados por robôs de IA são desperdício de tempo

Na Esplanada, fórum em que os chamados wikipedianos debatem o futuro da enciclopédia digital mais popular da internet, um assunto provoca embates acalorados: os textos gerados por robôs que aparecem nos verbetes e nas discussões e incomodam os humanos que editam o site.

Para o fundador da Wikipédia, Jimmy Wales, 59, esse debate deixou uma coisa clara. “Não queremos que alguém busque um chatbot, diga ‘escreva um artigo sobre isso’, copie e cole o conteúdo. Isso será horrível, cheio de erros e um desperdício do tempo de todos.”

O empreendedor nascido no Alabama, nos Estados Unidos, conversou com a Folha por videoconferência de sua casa, em Londres, sobre o seu novo livro, “As Sete Regras da Confiança”.

A obra, escrita a quatro mãos humanas, aborda o trabalho na Wikipédia para nutrir uma comunidade, com relações estáveis e duradouras. O coautor é o escritor canadense Dan Gardner, que já foi conselheiro do ex-premiê canadense Justin Trudeau.

Hoje, diz ele, a enciclopédia tem padrões sobre fontes, qualidade e verificação. “Se nós, wikipedianos, não aceitarmos que sempre podemos melhorar a enciclopédia quando recebermos críticas, nós falhamos. Nós construímos uma reputação porque sempre abrimos espaços para críticas e dúvidas.”

O que o modelo de autogestão da Wikipédia ensinou ao sr. sobre a gestão de conflitos, com gente de tantas culturas e idiomas?

Nós somos uma organização voluntária, com pessoas de todo o mundo trabalhando juntas. O ponto central do livro é refletir sobre como tudo isso deu certo contra todas as expectativas. Como podemos ser tão abertos? Grande parte disso se deve a um propósito bom e claro —essa é a terceira regra do livro.

Todos que chegam à Wikipédia entendem que temos um objetivo: criar uma enciclopédia para todos, em cada idioma existente. Isso é diferente da maioria das redes sociais, que não têm uma meta clara e funcionam apenas como grandes fóruns abertos. Ter esse foco ajuda a canalizar a atenção das pessoas e a fechar acordos. Sempre perguntamos: “Isso ajuda a enciclopédia ou não?”. E assim seguimos em frente.

Considerando que a internet mudou da cabeça aos pés nos últimos 25 anos, é um desafio conquistar as gerações mais jovens, que aprenderam a navegar no TikTok?

Para nós, o importante é sempre ser receptivo e aberto para essas novas pessoas. Uma reportagem recente me impressionou e serve de exemplo. Era sobre novas pessoas que queriam escrever sobre música na Wikipédia e falar sobre novas bandas. Elas acabaram recebendo perguntas dos usuários mais velhos: “Quem são essas bandas de que eu nunca ouvi falar?”. É uma história engraçada porque no passado éramos nós os jovens que escrevíamos sobre bandas que nossos pais não conheciam. Esse movimento é muito bom.

Como a Wikipédia adquiriu credibilidade nos últimos 25 anos?

No começo, as pessoas não sabiam direito o que fazer com a Wikipédia. Quando o site era muito recente, a qualidade do conteúdo também era baixa. A primeira pessoa que escreveu sobre São Paulo, por exemplo, pode ter dito que era uma cidade no Brasil e apertado “enter”.

Mas a enciclopédia ficou maior. Nós temos regras sobre fontes, qualidade dessas referências e coisas do tipo. Claro que sempre há problemas. Se nós, wikipedianos, não aceitarmos que sempre podemos melhorar a enciclopédia quando recebermos críticas, nós falhamos. Temos de dizer: “Espere, veremos o que podemos fazer para melhorar”. Nós construímos uma reputação porque sempre abrimos espaços para críticas e dúvidas.

E hoje há mais estrutura do que há 20 anos?

Hoje há muito mais pesquisa acontecendo dentro e sobre a Wikipédia. Hoje, por exemplo, nós temos muitas discussões na comunidade sobre IA. A inteligência artificial é terrível e impressionante em igual medida. Por isso, estamos buscando maneiras de, por exemplo, identificar e aceitar correções de erros crassos mais rapidamente.

Já há algum consenso sobre o uso de IA?

Ainda existe muito conflito. Talvez conflito seja forte, mas às vezes são discussões bem acaloradas. Posso dizer que algumas coisas já ficaram claras. Não queremos que alguém busque um chatbot, diga “escreva um artigo sobre isso” e copie e cole o conteúdo. Isso será horrível e cheio de erros, um desperdício do tempo de todos.

Ao mesmo tempo, algumas pessoas usam os chatbots para melhorar na gramática. Existem alguns usos muito bons. Eu também quero muito testar algumas tarefas. Será que a IA pode ser boa em encontrar fontes que deveriam estar mencionadas, mas não estão? Eu não quero que a IA edite a Wikipédia. Porém, se ela conseguir encontrar ideias úteis, isso poderá ser bastante vantajoso. Isso me deixa empolgado.

Como o sr. vê projetos como a Grokipedia, que tenta competir com a Wikipédia usando IA para gerar todos os tipos de artigo?

É bem diferente, até porque a qualidade é bem baixa e a transparência é mínima. Ninguém faz ideia de por que o texto diz aquilo em vez de outra coisa. É bem diferente do modelo da Wikipédia, onde a comunidade está ali para responder a perguntas e para atualizar as coisas. Na Wikipédia, as pessoas podem ir à página de discussão e ver os debates que aconteceram e tudo mais.

Mas, ainda assim, é interessante. É difícil prever como o mundo vai estar daqui a 25 anos. Se a IA continuar melhorando, acho que vamos ver cada vez mais o uso dela, mas, pelo menos por enquanto, achamos que é prematuro por uma margem bem grande.

Robôs de empresas de IA continuam sobrecarregando a Wikipédia ou os acordos recentes melhoraram a situação?

Até certo ponto, sim. Temos cada vez mais acordos com empresas de IA para que elas não minerem o site de forma predatória, porque isso pesa muito na nossa infraestrutura. Cada acesso automatizado gera um custo operacional alto.

O ideal é que utilizem a nossa ferramenta de informação desenvolvida especificamente para empresas. Mas também monitoramos a chegada de programas baseados em agentes que operam localmente.

As pessoas passarão a usar softwares que carregam dezenas de páginas da Wikipédia em segundo plano sem que elas percebam, o que pode gerar um tráfego enorme. Ainda não vimos isso acontecer em larga escala, mas o volume está crescendo.

Para o sr., a sociedade avançou no acesso à informação ou a fragmentação da internet piorou as coisas?

São as duas coisas ao mesmo tempo. O acesso ao conhecimento está melhor do que nunca e as pessoas têm a capacidade de descobrir qualquer assunto. Ao mesmo tempo, quem consome informação apenas pelas redes sociais corre o risco de ficar preso em uma bolha algorítmica.

Como isso é muito discutido hoje, as pessoas estão conscientes de que as redes tradicionais não as expõem a uma diversidade saudável de opiniões. Muita gente está começando a preferir ir atrás da informação de formas diferentes.

Apesar disso, outros aspectos das redes são divertidos. Como qualquer pessoa, eu gosto de assistir a vídeos curtos e engraçados. Não há nada de inerentemente errado nisso.

Como está a relação da Wikipédia com as redes sociais atualmente?

Uma parte é feita pela Fundação Wikimedia e, claro, existem membros da comunidade que também têm muitos seguidores nas redes sociais. Tem o Depths of Wikipedia (Profundezas da Wikipédia), por exemplo, que é uma conta enorme no Instagram gerenciada por um membro da comunidade que posta coisas divertidas e curiosas. Acho que o pensamento principal ali é: as redes são mais um canal para alcançar as pessoas e lembrá-las da Wikipédia.

Qual foi o principal aprendizado que o sr. acumulou na Wikipédia em todos esses anos?

É o fato de que a maioria das pessoas é confiável, e essa é uma mensagem muito bonita para os dias de hoje, em que a confiança está em queda. A maioria das pessoas é decente e gentil, e nós precisamos valorizar isso na sociedade.


RAIO-X | JIMMY WALES, 59

É cofundador da Wikipédia e da Fundação Wikimedia. Escolhido uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, também foi apontado pelo Fórum Econômico Mundial como um dos “Jovens Líderes Globais”. É graduado em finanças pelas universidades de Auburn e do Alabama.

noticia por : UOL

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