Ampliar seus horizontes não é fácil. E foi isso que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deixou claro com a 98ª entrega do Oscar, na noite deste domingo (15).
Seus membros podem até ter distribuído várias indicações a estrangeiros nesta edição, mas preferiram restringir as vitórias deles à categoria de melhor filme internacional. E mesmo nela não foram necessariamente ousados.
“Valor Sentimental“, norueguês que derrotou o brasileiro “O Agente Secreto“, afinal, é uma escolha fácil. Um dramalhão familiar, o longa de Joachim Trier tem boa quantidade de cenas faladas em inglês, além de ter como garotos-propaganda a americana Elle Fanning e o sueco –mas já muito conhecido em Hollywood– Stellan Skarsgard.
Assim, a Academia confirmou que vê o cinema estrangeiro com limitações. Folias criativas como a de “O Agente Secreto” ou críticas políticas disfarçadas de comédias, como “Foi Apenas um Acidente“, fogem do que se espera numa categoria habituada a premiar dramas –no sentido mais direto da palavra– e filmes de guerra, com alta carga histórica e sentimental.
“Ainda Estou Aqui” se beneficiou disso no ano passado. Mesmo que “Emilia Pérez” tenha implodido sua campanha por polêmicas que criou para si, o longa francês era um musical de temas delicados, enquanto o filme de Walter Salles era um drama histórico, uma denúncia da ditadura militar, claro, mas pela perspectiva de uma mulher em frangalhos.
“O Agente Secreto”, por outro lado, brinca com uma infinidade de gêneros. Muito além de um drama histórico, o longa de Kleber Mendonça Filho se apropria do thriller e da fantasia, formatos americanos por excelência, jogando com elementos hollywoodianos, como o noir, o blockbuster, o filme B e até mesmo o “buddy cop” –tramas centradas na relação entre policiais.
É irônico, aliás, que os votantes deste Oscar tenham sido tão ousados ao indicar “Pecadores” 16 vezes e ao premiar uma atriz de um filme de terror –Amy Madigan em “A Hora do Mal”–, mas relativamente conservadores na ala onde a diversidade é mais gritante, pelo simples fato de reunir produções de diferentes países e, portanto, frutos de diferentes culturas cinematográficas e visões de mundo.
Algo destacado no próprio monólogo de abertura de Conan O’Brien, que afirmou que os filmes ali indicados foram feitos por artistas de 31 países, e eram o “resultado de milhares de pessoas falando línguas diferentes”.
Também disputavam a categoria de filme internacional “A Voz de Hind Rajab”, mistura de ficção com realidade embalada em suspense, e o tenso, barulhento e não convencional “Sirât”. O último, candidato da Espanha, ainda tinha chances em melhor som, prêmio que acabou nas mãos do filme mais conservador nos temas e na forma desta temporada, “F1”.
Da mesma forma, “O Agente Secreto” tinha indicações em melhor filme, direção de elenco e ator –para Wagner Moura. A primeira categoria era um sonho distante, mas as outras duas tinham chances de render vitórias. “Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores”, respectivamente, levaram a melhor.
Já “Valor Sentimental”, por mais que tenha caído nas graças dos americanos, foi vetado nas outras sete categorias em que concorria. Só triunfou mesmo onde estrangeiros são bem-vindos. Skarsgard parecia forte aposta em ator coadjuvante, mas a Academia preferiu dar um terceiro Oscar para Sean Penn. Seu excelente time de atrizes –com Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas e Renate Reinsve– nem chegou a ser levado a sério na campanha.
É lindo para a Academia bradar que está olhando para os estrangeiros, indicando tantas produções em língua não inglesa. Mas o discurso precisa se converter em premiação. É difícil acreditar que os americanos sejam, ano após ano, os melhores em todas as frentes do Oscar.
Vale citar as exclusões do chileno “O Olhar Misterioso do Flamingo”, que bebe do realismo fantástico, o alemão “O Som da Queda”, que brinca de forma sombria com diferentes linhas do tempo, e o sul-coreano “A Única Saída”, um suspense embebido em comédia, em categorias para além da internacional.
Foi uma safra estrangeira especialmente fértil, então não faz sentido que o Oscar tenha em seu campo de visão apenas os ocupantes das cinco vagas reservadas a estrangeiros. Ao menos a Coreia do Sul foi agraciada com dois prêmios. Ou quase.
“Guerreiras do K-Pop“, vencedor de melhor animação e canção original, talvez seja um bom retrato do que é de fato palatável para a maioria dos membros da Academia. O longa, afinal, se apropria da cultura coreana, mas é uma produção dos Estados Unidos, que segue fórmulas já consagradas naquela indústria.
Uma falsa sensação de que o horizonte agora vai além do letreiro de Hollywood.
noticia por : UOL





