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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 9:35

O que é uma batata? Um tomate de 9 milhões de anos

Como alimento, a batata pode ser assada, cozida, esmagada, picada, tostada, gratinada, frita. Como cultura, está entre as mais importantes do mundo, com mais de 350 milhões de toneladas produzidas anualmente. Sua eficiência —requer menos terra que o trigo ou o arroz— e sua capacidade de crescer em diversos ambientes a tornaram essencial para a segurança alimentar global.

Apesar disso, as suas origens nunca foram tão claras. Todo mundo come batatas, mas ninguém conseguia dizer exatamente de onde vieram.

Agora os cientistas conseguem, e a resposta é: tomates.

Um estudo publicado nesta quinta-feira (31) sugere que as batatas podem ter surgido há 9 milhões de anos por meio da combinação de material genético do Etuberosum, um grupo de plantas semelhantes à batata da América do Sul, e plantas de tomate selvagem.

Segundo o estudo, esse evento de hibridização levou à origem da característica distintiva da planta da batata, o tubérculo, uma estrutura subterrânea que armazena nutrientes e, como os humanos no fim descobriram, é comestível.

“Uma batata é filha do tomate e do Etuberosum“, afirmou Zhiyang Zhang, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas e autor principal do estudo, publicado na revista Cell. “Fizemos a análise e descobrimos: ‘Ah, ela é filha de duas plantas.'”

Cientistas há muito tempo observam que, acima do solo, as plantas modernas de batata se assemelham muito ao subgrupo de espécies sul-americanas chamado Etuberosum. Mas as plantas Etuberosum não produzem tubérculos. E geneticamente as batatas parecem estar mais relacionadas aos tomates; ambos pertencem ao mesmo gênero Solanum. Isso era confuso: por que as batatas se pareciam com uma planta, mas compartilhavam parentesco com outra?

Para resolver esse enigma, uma equipe internacional de cientistas analisou 128 genomas das três linhagens irmãs (tomates, Etuberosum e plantas de batata e seus parentes selvagens), além de três espécies de berinjela como grupo externo.

Os pesquisadores descobriram que a batata moderna tinha uma ancestralidade mista, que surgiu de um híbrido das linhagens de tomate e Etuberosum entre 8 a 9 milhões de anos atrás e levou à origem dos tubérculos. Essa hibridização pode ter permitido que as espécies subsequentes de batata —existem mais de cem hoje —se diversificassem e expandissem seu alcance pelos altos Andes, onde prevaleciam climas mais frios.

“Foi um estudo muito bem feito”, afirmou Esther van der Knaap, geneticista de plantas da Universidade da Geórgia (Estados Unidos) que não esteve envolvida na pesquisa. “Ele fornece um modelo de como isso poderia acontecer em muitos outros casos.”

No início, a combinação de duas plantas diferentes pode não ter produzido nada digno de nota. “Há alguma mistura antiga de genomas, e algumas plantas surgem disso”, observou Van der Knaap. Mas com o tempo —dezenas de milhares a talvez milhões de anos— a seleção natural levou a “um complexo de espécies totalmente novo”.

O estudo indica que os genes responsáveis pela formação de tubérculos foram uma combinação do material genético de cada progenitor evolutivo. O gene que diz à planta quando começar a produzir tubérculos, chamado SP6A, originou-se do tomate, enquanto o gene que controla o crescimento dos caules subterrâneos que se desenvolvem em tubérculos, conhecido como IT1, veio do Etuberosum.

Pingxian Zhang, também autor principal do estudo e também da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, mostrou-se entusiasmado com as possibilidades para pesquisas futuras. Apenas algumas espécies de batata são cultivadas, e melhorá-las tem apresentado desafios: como cultura, elas são tipicamente propagadas por clonagem, o que limita sua variedade genética e as torna mais vulneráveis a doenças. Gerar batatas com material genético de tomates poderia ser um caminho promissor, segundo Zhang.

Nos últimos anos, pesquisadores conseguiram analisar genomas em uma escala muito maior do que antes e inferir conexões evolutivas. Esses estudos “revolucionaram nossa compreensão do que pode ter ocorrido no passado”, disse Leonie Moyle, bióloga evolutiva da Universidade de Indiana, em Bloomington (EUA), que não esteve envolvida na nova pesquisa. Em relação aos novos resultados, ela afirmou que, “se as inferências estiverem corretas, elas podem ser empolgantes”.

Richard Veilleux, um horticultor da Virginia Tech que rastreou as origens da batata cultivada há milhares de anos, descreveu o estudo como um uso criativo da genômica. “Uma das dificuldades com estudos evolutivos, é claro, é que as espécies que existiam há 8 milhões de anos não existem mais. Agora sabemos de onde vieram as batatas um pouco melhor do que sabíamos antes.”

noticia por : UOL

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