O presidente Javier Milei, da Argentina, promoveu uma criptomoeda no ano passado que rapidamente disparou de valor e depois despencou na mesma velocidade, causando prejuízos de milhões de dólares aos investidores e desencadeando um escândalo e uma investigação.
Milei disse que estava apenas destacando um empreendimento privado e não tinha nenhuma conexão com a moeda digital chamada $Libra.
Novas evidências agora levantam questionamentos sobre sua afirmação.
Registros telefônicos de uma investigação federal conduzida por promotores argentinos sobre o colapso da moeda mostram sete ligações entre Milei e um dos empresários por trás da criptomoeda na noite de 2025 em que Milei publicou sobre a $Libra na plataforma social X.
O conteúdo das ligações, que ocorreram antes e depois da postagem de Milei, não é conhecido.
Mas os registros telefônicos —obtidos pelo The New York Times e divulgados primeiro por um canal de TV a cabo local, C5N— sugerem um grau de comunicação maior entre Milei e os empresários que lançaram o token do que o presidente reconheceu publicamente. Mensagens recém-descobertas também sugerem que Milei recebia pagamentos regulares de um dos empresários enquanto era deputado.
Milei não comentou publicamente sobre os registros de ligações e outros documentos, e não respondeu a um pedido de comentário.
Ele é citado como pessoa de interesse na investigação em andamento do promotor federal sobre a moeda digital, de acordo com documentos judiciais analisados pelo Times, mas não foi formalmente acusado de nenhum crime.
As últimas revelações reacenderam um escândalo que ameaça a própria base de um presidente que ascendeu ao poder e foi eleito em 2023 atacando uma classe política que chamava de corrupta.
Parlamentares da oposição exigiram que altos funcionários do governo Milei prestem depoimento perante o Congresso argentino sobre o escândalo da criptomoeda.
“O lançamento e a promoção da $Libra não foram de forma alguma improvisados ou acidentais por parte do presidente”, disse Maximiliano Ferraro, deputado da oposição que liderou uma investigação parlamentar sobre a moeda digital, a repórteres recentemente. “Foi uma operação planejada, coordenada e deliberadamente executada.”
A investigação parlamentar, entre outras coisas, alega que a intervenção de Milei como presidente foi central para a valorização inicial da moeda.
Somando-se aos desafios enfrentados por Milei, uma gravação vazada para a imprensa argentina e atribuída a um funcionário do governo alegou que a irmã e principal assessora do presidente, Karina Milei, lucrou com um esquema de propina separado. O áudio não foi verificado, e Javier Milei disse que o funcionário mentiu.
O chefe de Gabinete de Javier Milei, Manuel Adorni, está sendo investigado por um promotor sob acusações de viagens e despesas extravagantes. Adorni negou qualquer irregularidade.
O escândalo da $Libra começou depois que Javier Milei publicou uma mensagem no X divulgando uma criptomoeda recém-criada, dizendo que ela ajudaria a financiar pequenas empresas argentinas. Sua postagem incluía o código necessário para comprar o token, que aparentemente não era público na época.
A mensagem de Milei imediatamente deu visibilidade e credibilidade ao projeto. À medida que investidores correram para comprar a moeda, seu valor disparou ao longo de várias horas, mas depois caiu rapidamente. Os maiores compradores haviam vendido suas moedas, deixando muitos outros com perdas que totalizaram cerca de 250 milhões de dólares.
No mundo das criptomoedas, isso é conhecido como “rug pull” —os primeiros compradores vendem no pico, enquanto todos os outros ficam com tokens praticamente sem valor.
Dias depois, um promotor federal abriu uma investigação criminal sobre a moeda e seu colapso.
Pessoas-chave de interesse, de acordo com documentos judiciais, incluem Mauricio Novelli, o empresário argentino por trás do token que tem uma longa relação com Javier Milei, e Hayden Davis, o consultor americano que auxiliou no lançamento da memecoin de Melania Trump.
Pouco depois de o escândalo estourar no ano passado, Davis disse em um comunicado que havia atuado apenas como consultor do projeto e não se beneficiou dele. Davis não respondeu aos pedidos de comentário para esta reportagem.
Além de Milei, sua irmã e outros assessores também foram citados como pessoas de interesse na investigação do promotor, de acordo com uma pessoa com acesso aos arquivos do caso. Os registros vistos pelo Times mostram sete ligações telefônicas entre Javier Milei e Novelli na noite do lançamento da $Libra, 14 de fevereiro de 2025. Novelli também teve múltiplas ligações com dois dos principais assessores de Milei, Karina Milei e Santiago Caputo, de acordo com os registros telefônicos.
Antes de entrar na política, Javier Milei lecionou na pequena academia de investimentos de Novelli em 2020, e depois que Milei foi eleito para o Congresso em 2021, ele continuou aparecendo em vídeos promovendo a escola.
Em 2022, Milei endossou outro empreendimento ligado a Novelli —um projeto de videogame cripto, que Milei chamou de “um modelo econômico sustentável ao longo do tempo”. O projeto colapsou em semanas sem investigação pública ou acusações de irregularidades vinculadas a ele.
Novas mensagens recuperadas do telefone de Novelli como parte da investigação do promotor federal incluem mensagens de áudio do WhatsApp de 2023 nas quais Novelli diz a um assistente para incluir no orçamento um valor para Milei, que ainda era deputado, referindo-se aos “2.000 de sempre para Milei” e descrevendo como um “salário” mensal.
As gravações do WhatsApp foram obtidas pelo Times e publicadas primeiro pelo La Nación, um jornal argentino.
Em outra mensagem de áudio em abril de 2024, cinco meses depois de Milei se tornar presidente da Argentina, Novelli disse a um assessor sobre “os 4.000 que precisamos dar para Karina”. Era uma aparente referência à irmã de Milei, embora o contexto dessas e das outras trocas telefônicas permaneça obscuro.
Investigadores trabalhando com o promotor federal também encontraram rascunhos de documentos no telefone de Novelli, vistos pelo Times, apontando para possíveis arranjos financeiros entre os empresários de cripto —Davis e Novelli— e Javier Milei.
Um deles delineava um esquema de pagamento de 1,5 milhão de dólares vinculado a Milei nomear publicamente Davis como assessor do presidente. Não estava claro pelo rascunho a quem o pagamento seria destinado. Outro parece ser uma carta de intenções não assinada da empresa de Davis oferecendo serviços gratuitos de consultoria em blockchain ao governo argentino.
Nenhuma evidência surgiu mostrando que Milei concor dou ou recebeu esses pagamentos, ou assinou qualquer contrato.
Milei publicou uma selfie no X com Davis, dizendo que Davis o assessorava em blockchain e IA.
Horas após a postagem, de acordo com registros da investigação do promotor federal, Novelli enviou uma mensagem a um amigo no WhatsApp dizendo: “Fechei um negócio tremendo”, embora não tenha especificado a que negócio se referia.
Folha Mercado
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O advogado de Novelli, Daniel Rubinovich, pediu a um tribunal que exclua toda a análise forense de seu telefone, argumentando que o aparelho pode ter sido adulterado enquanto estava sob custódia das autoridades. Novelli não foi formalmente acusado.
Novelli “não tem absolutamente nenhuma conexão com qualquer irregularidade atribuída a ele, e não houve nenhuma relação imprópria com funcionários do governo”, disse Rubinovich em uma mensagem de WhatsApp ao Times.
Lilia Lemoine, deputada e amiga de Milei, disse que o escândalo da $Libra foi uma de várias “operações de difamação” lançadas para desacreditar o governo Milei que acabaram não dando em nada.
Líderes da comissão também pediram a destituição de Eduardo Taiano, o promotor que lidera o caso judicial da $Libra, acusando-o de atrasar a investigação e reter evidências-chave.
O gabinete de Taiano emitiu um raro comunicado defendendo as investigações, dizendo que “reafirma seu compromisso em avançar com a investigação, respeitando as garantias do devido processo legal e protegendo adequadamente informações sensíveis”.
noticia por : UOL






