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Cuiaba - MT / 8 de março de 2026 - 6:29

Nova falha do Starship lança dúvidas sobre cronograma de missão à Lua

A Nasa espera colocar astronautas na Lua em 2027. Mas a espaçonave crucial para essa missão continua explodindo ou se desintegrando: o Starship, da SpaceX. Originalmente concebido como um foguete para ir a Marte, ele também é uma peça fundamental no plano da agência americana para superar a China e pôr humanos na superfície lunar pela primeira vez em mais de meio século.

Em seu nono voo de teste, na última terça (27), o Starship conseguiu chegar ao espaço. Porém, começou a girar fora de controle e se despedaçou ao reentrar na atmosfera. Os dois lançamentos anteriores terminaram em explosões.

As falhas consecutivas podem ter diminuído a probabilidade de a SpaceX cumprir a meta da Nasa para 2027, segundo observadores, um cronograma que já foi questionado por ser excessivamente ambicioso.

No entanto, especialistas aeroespaciais não pareceram muito preocupados. Vários observam que o Starship é uma façanha de engenharia que quebra fronteiras e que, mesmo quando os testes terminam com o céu cheio de detritos, há algum progresso. Essa também foi a mensagem do fundador e CEO da SpaceX, Elon Musk, em sua plataforma de mídia social X após a missão de terça-feira.

“O Starship chegou ao desligamento programado dos motores da nave, então foi uma grande melhoria em relação ao último voo!”, escreveu Musk. “Além disso, não houve perda significativa de placas do escudo térmico durante a subida. Vazamentos causaram a perda de pressão do tanque principal durante a fase de navegação e reentrada. Dados muito bons para analisar.”

A porta-voz da Nasa, Cheryl Warner, disse na quarta-feira (28) que a agência sentiu-se confiante após o último voo do Starship e que cada teste produz dados importantes. A missão lunar “usará uma versão diferente do veículo em relação à versão de desenvolvimento testada”. “Temos confiança de que a SpaceX investigará completamente todos os aspectos de seu voo de teste e resolverá quaisquer problemas”, afirmou ela.

Phil Larson, ex-conselheiro espacial do presidente Barack Obama e hoje estrategista sênior no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, estava igualmente otimista. “Isso é esperado e, na verdade, divertido de assistir. Esta é a nossa versão da corrida espacial dos anos 60, atualizada com nova tecnologia, melhores foguetes, sistemas reutilizáveis.”

Mas o voo de teste de terça-feira, seja ele visto como um fracasso ou não, ocorre em um momento delicado para a Nasa e seu programa lunar. Considerando o elaborado e ambicioso plano para retornar à Lua, falhar em resolver os problemas do Starship não é uma opção.

Os problemas que causaram as duas explosões anteriores da Starship foram resolvidos, observou a consultora aeroespacial Mamta Patel Nagaraja, ex-cientista-chefe associada para exploração na Nasa. Mas, para ela, o objetivo da agência de colocar pessoas na superfície lunar em 2027 pode ser implausível.

“O fato de que eles [os foguetes] vão ao espaço é ao menos um progresso. Agora, isso muda o cronograma? Claro que vai empurrar o cronograma.”

O programa Artemis foi concebido durante o primeiro governo Donald Trump. Em 2019, a agência estabeleceu a data de 2024 para o pouso de astronautas no satélite natural da Terra. Mas o cronograma sofreu atrasos.

A missão Artemis 1 enviou uma cápsula não tripulada ao redor da Lua em 2022. A próxima, a Artemis 2, tem como objetivo cumprir uma jornada semelhante, mas com astronautas a bordo, e deve ser lançada no próximo ano. A Artemis 3, que prevê levar humanos a um ponto perto do polo sul lunar, está programada para 2027.

Esse programa tem sido alvo de críticas de fora da Nasa —Musk o chamou de distração do objetivo maior de chegar a Marte. Trump também ecoou esse argumento. O Artemis e programas precursores têm sido custosos, na ordem de US$ 100 bilhões até agora, segundo um relatório do inspetor-geral da Nasa.

Algumas das críticas mais severas têm sido direcionadas à complexa arquitetura da missão.

“A arquitetura atual do Artemis não faz sentido”, afirmou o engenheiro aeroespacial Robert Zubrin, presidente da Mars Society, que defende a exploração do planeta vermelho.

Os elementos, segundo ele, não se encaixam. “São cinco elementos separados que foram financiados por razões diferentes.”

O plano atual usa um foguete de alta capacidade da Nasa, o SLS (Sistema de Lançamento Espacial) para enviar quatro astronautas à órbita lunar em uma cápsula que também pertence à agência, a Orion. Vem, então, o que pode ser o maior desafio: levar dois desses astronautas à superfície da Lua e trazê-los de volta em segurança.

A Nasa concedeu à SpaceX US$ 4 bilhões em contratos do programa Artemis que incluem o uso de um Starship modificado para acoplar à Orion e então transportar os astronautas para a superfície lunar e de volta.

O módulo lunar é tão alto —50 metros— que os astronautas terão de pegar um elevador para chegar à superfície. Quando lançados de volta à órbita lunar, eles se reuniriam com os outros dois astronautas na Orion, que os enviaria de volta à Terra.

Alguns elementos importantes da missão estão longe de serem concluídos ou não passaram por testes importantes ou revisões. Isso inclui marcos que a SpaceX ainda não alcançou.

Para realizar suas tarefas, a SpaceX precisa lançar um conjunto de tanques Starship não tripulados em órbita para criar um depósito de combustível. O combustível terá então que ser transferido para outro Starship que viajaria para a Lua. A empresa também deve pousar um Starship não tripulado na Lua antes de tentar fazê-lo com astronautas.

“Se a Nasa quiser lançar a Artemis 3 em 2027, a SpaceX deveria fazer sua demonstração de pouso não tripulado na Lua com o Starship até o fim de 2026”, disse a ex-astronauta Pam Melroy, que acumula três missões no ônibus espacial, incluindo uma como comandante, e atuou como administradora-adjunta da agência espacial durante o governo de Joe Biden.

“Embora tenha havido progresso no lançamento e recuperação, o desafio é que a SpaceX também precisa começar a provar a capacidade de ter um depósito de combustível e ser capaz de lançar com sucesso naves Starship até ele e abastecê-lo com propelente, o que também é necessário para um pouso na Lua”, afirmou Melroy.

A SpaceX tem demonstrado façanhas de engenharia desde seus primeiros dias e, graças ao foguete Falcon 9, é hoje a principal fornecedora de lançamentos globalmente. Astronautas americanos voam para a Estação Espacial Internacional (ISS) via Falcon 9 e a nave Dragon. Contudo, embora a SpaceX receba elogios por suas conquistas, Musk tem um histórico de promessas exageradas quanto ao cumprimento de marcos de missões.

“O Starship é mais desafiador do que o Falcon 9 foi”, disse Lori Garver, vice-administradora da Nasa no primeiro mandato de Obama. “Parte disso é território inexplorado. O tamanho do veículo é único, nunca fizemos um veículo reutilizável tão grande. Também não foi inicialmente planejado para a missão lunar; foi planejado para a missão a Marte.”

Desde que fundou a SpaceX, há mais de duas décadas, Musk tem defendido que o assentamento humano em Marte —depois se desenvolvendo em uma civilização completamente independente da Terra— é necessário para tornar a humanidade uma espécie multiplanetária capaz de sobreviver a ameaças. Ele tem criticado reguladores federais, que, a seu ver, retardaram o progresso da Starship.

No caminho do sonho de Musk existem tremendos desafios técnicos e os desejos do Congresso americano, que paga as contas e aprova a legislação dizendo à Nasa o que ela deve fazer. O Congresso está investido no Artemis. E o programa “Lua para Marte”, da Nasa, deixa claro que um é um trampolim para o outro.

E o primeiro passo ainda é —56 anos após a heroica jornada da Apollo 11— um grande passo.

noticia por : UOL

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