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Cuiaba - MT / 7 de junho de 2026 - 15:32

Não creio que morte da juíza tenha inspirado charge

No último sábado (9), duas juízas ligadas a movimentos feministas sugeriram que eu fizesse um contraponto às manifestações de repúdio a uma charge de Marilia Marz publicada na Folha.

A peça traz uma lápide no cemitério com os dizeres: “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos”.

A charge foi associada, indevidamente a meu ver, à morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, ocorrida dias antes, após a coleta de óvulos.

Eu não estava acompanhando as redes sociais. Não conversara com ninguém, mas opinei: “Não acredito que a autora e o jornal tenham pensado na morte da juíza para fazer e editar a charge. Não conheço a chargista, mas tenho dificuldade em aceitar essa associação”.

No mesmo dia, fui procurado por mais dois juízes e uma advogada (juíza aposentada), aos quais sustentei minha primeira avaliação.

Os cinco são experientes, acostumados a rever posições. Conheço alguns há mais de 20 anos.

Má vontade persistente

No dia seguinte, o Painel do Leitor publicou resposta da chargista: “A morte trágica da juíza Mariana Ferreira não foi inspiração para a charge, e lamento muito que essa associação tenha sido feita. Só soube dessa horrível coincidência e interpretação a partir dos ataques na internet. Sinto muitíssimo”.

Esse depoimento não arrefeceu as críticas. Em artigo sob o título “Chargista não debochou da morte da juíza”, a colunista Mariliz Pereira Jorge questiona: “Que empatia tem quem usa a memória de uma mulher morta para destruir, em vida, reputação e carreira de outra mulher?”

Marília escreveu depois: “Tarde demais. Todos os tribunais já haviam decidido que a minha cabeça operava numa chave macabra e cruel, segundo a qual zombar da morte de outra mulher seria algo razoável”.

A chargista ficou sozinha.

Afastando suposições

Reproduzo alguns argumentos que expus aos juízes em mensagens:

– Respeito a dor da família da juíza. Mas a charge (imprópria e infeliz) poderia ter sido criada pensando num juiz que aprova penduricalhos para pagar academias e despesas de parentes.

– A lápide da charge não faz nenhuma sugestão sobre gênero. Só a assinatura da autora.

– Achei uma maldade sugerir que a chargista tenha desconhecido a desigualdade de gênero e ofendido uma juíza cuja morte nada tinha a ver com penduricalhos.

– Poderia estar “enterrado” ali qualquer presidente (masculino) de tribunal. Ou do TCU, do Ministério Público, da AGU.

– Por que não supor que a lápide foi dirigida aos machistas?

– Pode ser uma crueldade sugerir que a chargista fez o desenho pensando no triste caso da juíza.

– A questão dos penduricalhos incomoda os juízes. Mas essa polêmica envolve outras carreiras.

– Se você ler a coluna de hoje [sábado] do criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, verá que a crítica sobre os penduricalhos não fica só no Judiciário. Veja a lista de entidades que ele coloca.

– Tomo emprestado perguntas que os editores fariam aos repórteres: a chargista foi ouvida? A família da juíza que morreu foi ouvida?

– As associações de juízes estão espumando com as críticas do jornal. Esquecem que a Constituição vem sendo driblada.

– Os ministros que agora defendem o teto têm muitos motivos pessoais, acredito, para a grita.

– O momento pode ter sido infeliz, a charge também, mas a morte da juíza não tem a ver com os penduricalhos.

– Houve precipitação. E talvez tenha sido cometido uma grande injustiça com a autora da charge, que assinou a peça. E é mulher.

Preferi o risco de errar na avaliação do que ser injusto.

Críticas dos magistrados

Eis algumas manifestações dos juízes:

– É inegável o timing terrível e o desrespeito com a classe. O veículo dando a sua contribuição para um verdadeiro cancelamento da magistratura.

– Todo mundo na carreira, inclusa eu, estamos incrédulos e profundamente ofendidos com essa charge que a Folha publicou.

– Era previsível que a Folha fosse culpar a vítima. O jornal acima de tudo… Ainda dá tempo de ter mais empatia. Está na hora de a Folha ver juiz como gente. Hoje não vê.

– Se foi doloso [associar a charge com a juíza morta], isso é de uma crueldade estarrecedora. Se não foi, foi um erro de timing daqueles que o jornal não perdoa em outros profissionais.


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noticia por : UOL

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Cuiaba - MT / 7 de junho de 2026 - 15:32

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