No último sábado (9), duas juízas ligadas a movimentos feministas sugeriram que eu fizesse um contraponto às manifestações de repúdio a uma charge de Marilia Marz publicada na Folha.
A peça traz uma lápide no cemitério com os dizeres: “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos”.
A charge foi associada, indevidamente a meu ver, à morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, ocorrida dias antes, após a coleta de óvulos.
Eu não estava acompanhando as redes sociais. Não conversara com ninguém, mas opinei: “Não acredito que a autora e o jornal tenham pensado na morte da juíza para fazer e editar a charge. Não conheço a chargista, mas tenho dificuldade em aceitar essa associação”.
No mesmo dia, fui procurado por mais dois juízes e uma advogada (juíza aposentada), aos quais sustentei minha primeira avaliação.
Os cinco são experientes, acostumados a rever posições. Conheço alguns há mais de 20 anos.
Má vontade persistente
No dia seguinte, o Painel do Leitor publicou resposta da chargista: “A morte trágica da juíza Mariana Ferreira não foi inspiração para a charge, e lamento muito que essa associação tenha sido feita. Só soube dessa horrível coincidência e interpretação a partir dos ataques na internet. Sinto muitíssimo”.
Esse depoimento não arrefeceu as críticas. Em artigo sob o título “Chargista não debochou da morte da juíza”, a colunista Mariliz Pereira Jorge questiona: “Que empatia tem quem usa a memória de uma mulher morta para destruir, em vida, reputação e carreira de outra mulher?”
Marília escreveu depois: “Tarde demais. Todos os tribunais já haviam decidido que a minha cabeça operava numa chave macabra e cruel, segundo a qual zombar da morte de outra mulher seria algo razoável”.
A chargista ficou sozinha.
Afastando suposições
Reproduzo alguns argumentos que expus aos juízes em mensagens:
– Respeito a dor da família da juíza. Mas a charge (imprópria e infeliz) poderia ter sido criada pensando num juiz que aprova penduricalhos para pagar academias e despesas de parentes.
– A lápide da charge não faz nenhuma sugestão sobre gênero. Só a assinatura da autora.
– Achei uma maldade sugerir que a chargista tenha desconhecido a desigualdade de gênero e ofendido uma juíza cuja morte nada tinha a ver com penduricalhos.
– Poderia estar “enterrado” ali qualquer presidente (masculino) de tribunal. Ou do TCU, do Ministério Público, da AGU.
– Por que não supor que a lápide foi dirigida aos machistas?
– Pode ser uma crueldade sugerir que a chargista fez o desenho pensando no triste caso da juíza.
– A questão dos penduricalhos incomoda os juízes. Mas essa polêmica envolve outras carreiras.
– Se você ler a coluna de hoje [sábado] do criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, verá que a crítica sobre os penduricalhos não fica só no Judiciário. Veja a lista de entidades que ele coloca.
– Tomo emprestado perguntas que os editores fariam aos repórteres: a chargista foi ouvida? A família da juíza que morreu foi ouvida?
– As associações de juízes estão espumando com as críticas do jornal. Esquecem que a Constituição vem sendo driblada.
– Os ministros que agora defendem o teto têm muitos motivos pessoais, acredito, para a grita.
– O momento pode ter sido infeliz, a charge também, mas a morte da juíza não tem a ver com os penduricalhos.
– Houve precipitação. E talvez tenha sido cometido uma grande injustiça com a autora da charge, que assinou a peça. E é mulher.
Preferi o risco de errar na avaliação do que ser injusto.
Críticas dos magistrados
Eis algumas manifestações dos juízes:
– É inegável o timing terrível e o desrespeito com a classe. O veículo dando a sua contribuição para um verdadeiro cancelamento da magistratura.
– Todo mundo na carreira, inclusa eu, estamos incrédulos e profundamente ofendidos com essa charge que a Folha publicou.
– Era previsível que a Folha fosse culpar a vítima. O jornal acima de tudo… Ainda dá tempo de ter mais empatia. Está na hora de a Folha ver juiz como gente. Hoje não vê.
– Se foi doloso [associar a charge com a juíza morta], isso é de uma crueldade estarrecedora. Se não foi, foi um erro de timing daqueles que o jornal não perdoa em outros profissionais.
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noticia por : UOL






