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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou, na última semana, dados que mostram a diminuição de homicídios contra mulheres e o aumento de feminicídios —mortes motivadas por gênero— em 2025.
O cenário é pior para as mulheres negras, que são 56% da população feminina brasileira, mas foram 65% das vítimas de feminicídio e 74,6% das vítimas de mortes violentas intencionais.
“Esse dado está ligado à interseccionalidade que precisa ser levada em conta no debate sobre violência contra mulheres”, escrevem os pesquisadores do fórum. O termo “interseccionalidade” foi usado pela primeira vez em 1989 pela americana Kimberley Crenshaw, para explicar como fatores sociais se sobrepõem na definição da identidade de uma pessoa.
O tema é antigo. Em 1851, a abolicionista americana Sojourner Truth perguntou “Ain’t I a Woman?” (“E eu não sou uma mulher?”), enquanto questionava por que as mulheres negras eram excluídas das noções de fragilidade e proteção associadas à feminilidade branca da época.
Em 25 de julho de 1992, aconteceu o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-americanas e Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana. Mais de 300 representantes de 32 países se reuniram para denunciar como machismo, racismo e preconceito de classe se combinavam nas opressões que sofriam.
O encontro ocorreu mais de dez anos após o lançamento do livro “Mulher, Raça e Classe”, de Angela Davis. A autora esteve no último sábado (25) na Flip, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher Negra, data oficializada pela ONU devido ao encontro de 1992.
Davis, em entrevista à Folha, mostrou como esse tema é indissociável de seu repertório. Ela contou que está escrevendo um novo livro com a companheira Gina sobre Geri Allen (1957-2017), pianista de jazz negra. “Muitos dos novos pianistas relativamente jovens no jazz foram influenciados por ela. E as pessoas os conhecem. Mas não ela”.
Também neste sábado, em especial organizado pela repórter Paola Ferreira Rosa, mulheres negras de diferentes perfis falaram sobre seus desejos em relação a diferentes áreas da vida, como política, segurança, maternidade e direitos reprodutivos.
Elas percebem todas essas áreas atravessadas pelo racismo. Além de mulheres, dizem, são negras. As mães, em unanimidade, desejam um futuro mais leve e ambicioso para as próprias filhas, meninas negras que querem ser policiais e jogadoras de futebol.
O cenário, como discutiram as mulheres há mais de três décadas, em Santo Domingo, segue distante desse futuro desejado. A ativista Sandra Maria Silva, 81, sabe disso, mas pensa nas gerações futuras. “Nasci lutando e vou morrer lutando”, diz sobre os próprios sonhos.
Uma mulher para conhecer
Me sinto boba de indicar Lélia Gonzalez porque você provavelmente a conhece, ela até tem estátua em Belo Horizonte. Mas sinto que, dado o tema, e a data celebrada no sábado, é permitido trazê-la.
Angela Davis já disse que aprendia mais com Lélia Gonzalez do que a plateia brasileira poderia aprender com ela própria, durante entrevista coletiva em São Paulo, em 2019. Citei a americana no texto, mas preferi trazer Lélia com mais calma aqui.
Antropóloga e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, ela foi uma das pioneiras em unir raça e gênero num só pensamento, criando conceitos como “amefricanidade” e “pretuguês” para pensar essa intersecção.
Questionou o mito da democracia racial e escreveu sobre o lugar da mulher negra numa sociedade patriarcal e colonial. Parte dessas ideias está em “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano”, lançado postumamente em 2020. Vale a leitura.
noticia por : UOL






