O mundo pega fogo. Países em guerra, fronteiras redesenhadas à força, violência, fome, mas os grandes jornais decidiram que há algo mais urgente: a relação de Victoria Beckham com a nora Nicola. Manchetes, artigos e análises dedicadas àquilo que realmente importa: sogras.
A geopolítica das famílias é mais perigosa do que qualquer conflito armado. Nenhuma guerra ameaça exterminar a paz cotidiana com tanta eficiência quanto uma relação conturbada com a sogra.
Guerras acabam, sogras não. Não existe ex-sogra, uma vez sogra, sogra para sempre. Nem a lei ousou discordar. Para o Código Civil, trata-se de um parentesco vitalício, que não se extingue mesmo com o fim do casamento. Chama-se “parentesco civil por afinidade” —”afinidade” e “sogra” na mesma frase soa otimista demais: ou os legisladores foram generosos, ou nunca tiveram sogra.
Voltemos ao caso Beckham. Casamento milionário, 500 convidados, tudo pronto para a primeira dança. O cantor Marc Anthony chama o noivo, Brooklyn Beckham, e convida a “mulher mais linda do salão” para a pista. A noiva se levanta, mas a sogra é mais rápida. Victoria corre, rouba a cena e dança com o filho —segundo ele, de forma “muito inapropriada”.
Ela não aguentou nem a cerimônia terminar para deixar o recado: pode até casar com meu filho, desde que ele continue sendo meu.
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Victoria já teria mostrado traços de sogra profissional ao cancelar a confecção do vestido da noiva na véspera do casamento, de acordo com o filho.
Nada de surpreendente em se tratando de sogra. E, como hoje roupa suja se lava no Instagram, o que surpreendeu foi a proporção da notícia e o espanto coletivo.
A gente aprende cedo. Cresce ouvindo que sogra é a vilã inevitável da vida adulta. Que são víboras, venenosas, jararacas. Só mais tarde percebe o golpe duplo. Ao mesmo tempo em que fomos treinadas a odiar a sogra, nossas futuras noras estão sendo treinadas, nesse exato instante, a nos odiar no futuro.
Toda sogra tem a convicção de que ninguém será suficiente para o filho. A partir daí, o repertório é previsível: diz que o filho sempre foi educado e que, curiosamente, só “piorou” depois que se casou; antes de criticar, avisa “não quero me meter, mas…”; chama controle de cuidado; e, quando contrariada, vira vítima, depois de tudo que fez pelo filho ingrato.
Mas os tempos mudaram, a sogra contemporânea prefere ser “amiguinha”. Cheia de boas intenções, elogia a roupa e chama a nora de “minha filha”. É a mesma sogra de sempre, mas repaginada. Esperta, sabe que o autoritarismo perdeu prestígio e que hoje o poder se exerce com gentileza.
Sejamos justos, nem toda sogra é igual. Existe sogra de nora e sogra de genro. Para a nora ser aceitável aos olhos da sogra, precisa cuidar do príncipe, trabalhar, cozinhar, limpar e, de preferência, não contrariar —e não pode ser materialista: amor verdadeiro não se mede em joias. Já com o genro a régua muda. Onde já se viu o marido da filha esperar que ela cuide, trabalhe, cozinhe, limpe, se cale e ainda entregue a geladeira à visitação da mãe (dele!)? Genro bom tem que paparicar, dar conforto, atender aos desejos da mulher —e encher de joias, porque quem ama não economiza.
Brooklyn se afastou dos pais e não pretende reatar tão cedo. Victoria dançou —não só na festa.
Aviso: Contém ironia (minha amada sogra lê até subtexto)
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noticia por : UOL




