A cena é familiar: uma foto bem produzida, crianças sorrindo, hashtags certeiras e um texto inspirador no Instagram. A campanha emociona, engaja, rende likes e reportagens. Mas, passado o brilho, a vida de quem aparece na imagem pouco mudou.
Nos últimos anos, a filantropia brasileira ganhou fôlego. A pandemia, a pauta ESG e a pressão por responsabilidade social de empresas e famílias de grandes patrimônios privados multiplicaram institutos, fundos e movimentos pelo bem comum. É uma boa notícia. Mas, junto dela, cresce uma pergunta incômoda: estamos diante de uma nova era de impacto ou apenas de uma nova embalagem para velhas práticas?
É cada vez mais comum ver projetos moldados para caber num post ou num press release, e não num processo profundo. Iniciativas que priorizam indicadores fáceis e prazos curtos — alinhados ao ano fiscal, não ao tempo da transformação. Muitas funcionam mais como estratégia de marketing do que como compromisso com mudanças estruturais. É o chamado ESGWashing: usar o discurso social e ambiental para fortalecer reputações, sem promover transformações reais.
Enquanto isso, organizações comunitárias, movimentos sociais e projetos de base seguem com dificuldade de acessar recursos. Ficam de fora tanto de editais quanto das listas de doações de grandes fortunas, já que raramente se encaixam nos formatos padronizados que orientam a filantropia. Essa lógica da filantropia de vitrine reforça a distância entre quem doa e quem precisa.
O relatório “Where is the Money for Black Feminist Movements?” (Onde Está o Dinheiro dos Movimentos Feministras Negros?”, em tradução livre), do Black Feminist Fund, revela o abismo: entre 0,1% e 0,35% da filantropia global de fundações foi destinada a mulheres negras, meninas e pessoas trans. No campo climático, só 0,22% do financiamento bilateral com recorte de gênero chegou a organizações feministas ou lideradas por mulheres. Os números mostram que o dinheiro ainda corre em caminhos conhecidos — longe das margens.
O recorte em mulheres negras e pessoas trans importa porque são exatamente esses os grupos que ocupam os extremos da régua das desigualdades. São elas que mais sofrem os impactos da exclusão e, paradoxalmente, as que menos recebem apoio. Se a filantropia não alcança quem está nas margens, dificilmente conseguirá produzir transformação estrutural.
Não se trata de desmerecer grandes doações, nem de negar avanços. Mas talvez seja hora de uma reflexão mais honesta. Se queremos reduzir as injustiças, precisamos ir além de medir curtidas e alcance: é preciso perguntar se houve escuta, se houve desconforto para quem doa e se houve autonomia para quem recebe. A filantropia, quando levada a sério, não patrocina apenas soluções: ela se dispõe a mexer em estruturas — inclusive nas que sustentam os próprios doadores.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço “Políticas e Justiça” da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Júlia Brandão foi “Povoada”, de Sued Nunes.
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noticia por : UOL






