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Cuiaba - MT / 15 de março de 2026 - 8:51

'Corte uma cabeça e outras crescerão': por que regime iraniano segue difícil de derrubar


Especialistas afirmam que estrutura de poder do Irã garante longevidade do regime.
Getty Images via BBC
Mais de quarenta anos após a Revolução de 1979, a República Islâmica do Irã enfrenta a crise mais grave de sua história.
Ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel mataram o Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, e outros altos comandantes militares, além de danificar infraestrutura essencial.
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Washington e Tel Aviv deixaram claro que desejam uma mudança de regime, incentivando os iranianos a derrubar seu governo.
Ainda assim, especialistas afirmam que o Irã construiu deliberadamente uma estrutura de poder robusta e duradoura, difícil de ser desmantelada.
O que explica essa resiliência — e por que ela difere da de outros países do Oriente Médio?
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‘Hidra iraniana’
Quem detém o poder no Irã
BBC
Desde a derrubada da monarquia iraniana, a República Islâmica construiu gradualmente um sistema político projetado para resistir a crises, dizem especialistas.
Esse sistema combina instituições rigidamente controladas, doutrinação ideológica, coesão das elites e uma oposição fragmentada.
“É uma estrutura semelhante à Hidra (monstro mitólogico com corpo de dragão e várias cabeças de serpente, que renasciam quando cortadas): você corta uma cabeça e outras crescem”, diz Sébastien Boussois, pesquisador de Oriente Médio no Instituto Geopolítico Europeu, na Bélgica.
No domingo, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, foi escolhido como seu sucessor, menos de duas semanas após a morte do pai.
Espera‑se que ele continue a linha dura do pai.
Novo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, tende a manter linha dura adotada por seu pai.
Getty Images via BBC
‘Poliditadura’
Especialistas afirmam que, ao contrário de países do Oriente Médio ou do Norte da África, como Tunísia, Egito e Síria — onde líderes foram derrubados — o Irã conseguiu resistir mais eficazmente a pressões externas graças a um aparato de segurança fortemente motivado por ideologia.
Segundo Bernard Hourcade, ex‑diretor do Instituto Francês de Pesquisa no Irã, sediado em Teerã, o país não funciona como uma ditadura tradicional centrada em um único líder, mas como uma “poliditadura”: uma aliança entre defensores do islamismo político e um intenso nacionalismo iraniano.
O poder é distribuído entre diversas esferas — instituições clericais, forças armadas e setores estratégicos da economia — o que torna o sistema muito mais difícil de derrubar do que regimes baseados em um líder único.
Entre os órgãos mais influentes está o Conselho dos Guardiões, responsável por vetar leis e filtrar candidatos para as eleições, reduzindo ainda mais as chances de qualquer facção desafiar seriamente o Estado.
Embora o Irã seja amplamente classificado como uma autocracia, oferece aos cidadãos a possibilidade simbólica de votar em algumas eleições, incluindo a escolha do presidente.
No entanto, o processo é rigidamente controlado, com candidatos avaliados pelo Conselho dos Guardiões segundo critérios como lealdade à República Islâmica.
O papel central da Guarda Revolucionária
Se as instituições formam o esqueleto do regime, as forças de segurança são amplamente vistas como o seu músculo.
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que atua paralelamente ao exército regular, é frequentemente descrito como a “espinha dorsal do regime”, afirma Hourcade.
Além de sua função militar, a Guarda tornou‑se uma potência política e econômica, com vastos interesses empresariais e influência exercida por meio da milícia Basij, uma organização paramilitar voluntária.
Um ponto crucial é que as forças de segurança permaneceram unificadas diante de sucessivas ondas de protestos.
Para Boussois, essa coesão está profundamente ligada à ideologia:
“Essa cultura de martírio presente entre os xiitas e em grupos como Hamas e Hezbollah é quase considerada parte do trabalho”, afirma.
O vice‑ministro da Defesa, Reza Talaeinik, declarou recentemente à TV que cada comandante da Guarda tem sucessores designados até três níveis abaixo, garantindo continuidade operacional.
Kasra Aarabi, chefe de pesquisa sobre a Guarda na organização americana United Against Nuclear Iran, argumenta que a estrutura descentralizada do Irã foi moldada pelas lições do colapso das forças iraquianas em 2003, durante a invasão liderada pelos EUA.
Se o regime continuar de pé, ele acredita que “a Guarda terá um papel ainda mais importante”.
Redes de patronagem e coesão das elites
Grande parte da economia iraniana é controlada por organizações ligadas ao Estado, como as bonyads — fundações de caridade que, ao longo do tempo, passaram a comandar milhares de empresas em diversos setores. Essas redes distribuem empregos e contratos a grupos leais ao regime.
O vasto império empresarial da Guarda Revolucionária, que inclui o conglomerado Khatam al‑Anbia, reforça esse sistema de patronagem.
Embora as sanções ocidentais tenham causado danos profundos à economia iraniana, essas estruturas ajudam a proteger as elites e a preservar seu interesse na continuidade do sistema, afirmam especialistas.
Segundo Boussois, o arranjo é “tão sólido que quase não vemos deserções”.
Ideologia e o legado da revolução
A religião também desempenha um papel central na preservação do poder no Irã.
A revolução estabeleceu uma rede duradoura de instituições religiosas, políticas e educacionais que continuam moldando a visão de mundo do Estado.
“Essa estrutura muito antiga e muito poderosa — ideológica, burocrática, administrativa — torna o sistema forte”, afirma Boussois.
Para ele, a ideologia “funciona como uma verdadeira fonte de unidade, vocação e recrutamento”.
Uma oposição dividida
Historicamente, a oposição iraniana tem sido marcada pela fragmentação. Ela reúne reformistas, monarquistas, grupos de esquerda, movimentos da diáspora — como o Conselho Nacional de Resistência do Irã — e diversas organizações étnicas.
Essa divisão não é recente, observa Ellie Geranmayeh, pesquisadora sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
Após a revolução, o debate sobre a criação de partidos políticos foi deixado de lado, em grande parte porque o país entrou em guerra com o Iraque em 1980, conflito que durou quase oito anos.
Segundo Geranmayeh, ao longo do tempo, facções moderadas foram “marginalizadas, desacreditadas ou presas” tanto pelo regime quanto por grupos linha‑dura.
Houve grandes ondas de protestos contra o governo — como o Movimento Verde de 2009 e as manifestações desencadeadas pela morte de Mahsa Amini em 2022 —, mas esses movimentos careciam de liderança centralizada e foram duramente reprimidos.
A onda mais recente de protestos, neste e no último ano, foi impulsionada por apelos do filho exilado do último xá (rei).
O Irã também mantém um dos sistemas de vigilância mais sofisticados da região, recorrendo a desligamentos frequentes da internet, monitoramento por Inteligência Artificial e unidades cibernéticas que visam ativistas no exterior.
Cautela pública — e por que ela começa a se desgastar
Por muitos anos, grande parte da população iraniana hesitou em pressionar por uma mudança de regime, influenciada pelo que viu nas intervenções lideradas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque, afirma Geranmayeh. A Primavera Árabe reforçou ainda mais essa cautela.
Segundo ela, porém, esse cálculo mudou. Muitos iranianos passaram a sentir que o Estado já não consegue garantir necessidades básicas — de empregos a água potável — ao mesmo tempo em que intensifica a repressão violenta.
A brutal repressão de janeiro contra uma nova onda de protestos — na qual milhares foram mortos após algumas das maiores manifestações já vistas no país — acelerou essa mudança, acrescenta.
Hourcade observa ainda a existência de um “fosso geracional” na forma como os iranianos enxergam o regime.
Os mais jovens, muitos deles altamente educados, conectados ao mundo e influenciados pelas redes sociais, rejeitam o sistema, que consideram “corrupto, opressivo e irrelevante para suas aspirações”, argumenta.
‘Todo regime acaba um dia’
Analistas afirmam que regimes autoritários tendem a cair quando três condições se alinham:
Mobilização em massa
Divisões entre as elites governantes
Deserções das forças de segurança
No passado, o Irã frequentemente experimentou a primeira, mas não as outras duas, dizem especialistas.
Hourcade acredita que o fim da República Islâmica é inevitável, mas não iminente. “Todo regime acaba um dia. A verdadeira questão é o tempo — a cronologia.”
Ele argumenta que a morte de Khamenei foi um grande golpe para o regime. “Não haverá outro como ele. Seu substituto nunca terá a autoridade que Khamenei teve.”
Mas Boussois diz que a queda da República Islâmica está longe de ser certa.
Se acontecer e for desencadeada por intervenção militar estrangeira, o que vier depois pode ser pior, afirma.
Trump disse anteriormente ao jornal americano New York Times que a captura do ex‑presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA seria o “cenário perfeito” para o Irã.
Mas Boussois afirma: “O oposto pode ocorrer — como na Coreia do Norte ou em Cuba — um fortalecimento do núcleo duro do regime.”
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Fonte: G1

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