Era quase Natal e Wagner Moura estava em apuros. Em meados de dezembro do ano passado, o ator se preparava, em Los Angeles, para ser fotografado pelo The New York Times, mas o estúdio que sediaria o trabalho cancelou o agendamento. Na última hora, Moura ficou sem lugar para a entrevista com o jornal, um passo importante na campanha de “O Agente Secreto” no Oscar.
Quem veio ao resgate foi Chuck James, um agente de talentos, que de bom grado abriu a sua casa na cidade para o encontro. Apesar de nunca ter trabalhado com o ator, o empresário americano colabora há anos com a sua assessora, Vanessa Cardoso.
“Ela me telefonou em desespero, dizendo ‘meu Deus, podemos fotografar o Wagner na sua casa para o New York Times?’. Respondi na hora que eles podiam”, diz o agente. O ensaio aconteceu na residência menos de 48 horas depois, com todas as equipes presentes —a única ausência foi o próprio Chuck, que saiu da cidade por conta de compromissos inesperados.
Histórias como esta são rotineiras nos bastidores de Hollywood, mas, nos últimos anos, envolvem cada vez mais os artistas do Brasil. A atual onda de sucesso do país no exterior, embalada pelas indicações de “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” ao Oscar, também se reflete no momento de maior contato entre as indústrias nacional e americana.
Só no último ano, Selton Mello participou do remake de “Anaconda“, Isis Valverde atuou com Sylvester Stallone em “Código Alarum” e Wagner Moura, além dos prêmios, protagonizou a série “Ladrões de Drogas” e dublou uma série animada de “Star Wars”.
Pouco antes deles, houve ainda Marco Pigossi em “Maré Alta” e “Gen V”, Bruna Maquezine em “Besouro Azul”, Sophie Charlotte em “O Assassino”, Gabriel Leone em “Ferrari”, Alice Braga em “Matéria Escura” e muitos outros. A internacionalização de atores brasileiros, antes um acontecimento, ficou comum nos Estados Unidos.
O bom momento vale para outros departamentos do cinema, que exportam técnicos e criativos com regularidade. Exemplos sobram na mesa, desde Adolpho Veloso, sensação das premiações deste ano pela fotografia de “Sonhos de Trem”, a Affonso Gonçalves, montador que empilha créditos em produções como “Carol” e “Hamnet”.
A trajetória de Wagner Moura é o maior indício do fortalecimento criativo entre os dois países. Revelado lá fora por seu trabalho em “Tropa de Elite”, em 2007, o ator estreou em Hollywood em 2010, com “Elysium”, e desde então construiu carreira firme no país, para onde se mudou em 2017.
O ator viu a maré virar uma onda a ser surfada em 2015, quando viveu Pablo Escobar na série “Narcos”. A produção da Netflix rendeu a Wagner a sua primeira indicação ao Globo de Ouro e abriu portas para oportunidades em seriados como “Iluminadas” e filmes do porte de “Guerra Civil“. Com o prêmio de melhor ator em Cannes e a indicação ao Oscar por “O Agente Secreto”, a expectativa é de que o brasileiro tenha ainda mais espaço nos Estados Unidos —e abra caminho para outros artistas do país.
O próprio Chuck James atesta a mudança de ares para os brasileiros na indústria americana. “As portas nunca estiveram tão abertas para o Brasil quanto agora”, diz o agente, que cuida da carreira de nomes como as atrizes Regina King e Megan Fox.
Hoje à frente da Ascend Artist Representation, agência que fundou há três anos, James acha tempo na agenda corrida para ajudar artistas nacionais em seus primeiros passos no território americano. Ele brinca que faz parte de um bonde de boas-vindas aos brasileiros, uma rede local de figuras da indústria que ajuda gente daqui a ganhar o mundo.
Além de salvar o ensaio de Moura, foi James, por exemplo, quem apresentou a cantora Anitta ao diretor criativo da Schiaparelli, seu cliente Daniel Roseberry, em 2022. A artista frequenta os eventos da marca italiana de alta costura desde então, aumentando a sua circulação pelo circuito da moda.
Na visão do agente, a indústria americana de hoje permite bem mais a emergência de brasileiros em posições importantes de suas principais produções. “Muitos anos atrás, mesmo se o seu inglês fosse ótimo, era muito difícil um lugar no meio se você não tivesse sotaque americano”, ele explica.
“A questão é que o circuito de festivais ganhou importância e isso ajudou a tornar a indústria global, com vários pontos de acesso. Agora, o que temos é um caldeirão aquecido e em busca de talento ao redor do mundo, algo muito diferente da exclusão de outrora.”
Em meio a tanta efervescência de mercado, agentes e gerentes de carreira se tornam peças fundamentais para o sucesso de artistas. Estes profissionais são famosos pela intermediação com produtoras e pela negociação de contratos, mas acumulam várias funções no cuidado com os artistas —chamados de “talentos” nos bastidores.
Dono da YBM Management, um escritório brasileiro de representação, Yohji Buchi resume o trabalho de agenciamento a uma responsabilidade compartilhada, que se adequa ao momento de vida do artista.
“O trabalho é mais estrutural e básico em algumas fases de carreira. Você tem que criar uma postura para o mercado, formar uma imagem consistente e controlar a exposição”, afirma o empresário, que trabalha com atores como Rodrigo Santoro. Já quando o artista é famoso e de boa reputação, Buchi diz que a função do agente está no direcionamento da carreira.
“A gente quer entender que história o ator ou a atriz quer contar naquele momento e onde ele quer chegar.” O processo envolve, sobretudo, a construção de um caminho até os objetivos do cliente, incluindo profissionais com os quais ele queira trabalhar.
Nisso, a formação de equipes é fundamental. Segundo Buchi, os agentes gerenciam os profissionais que cercam os atores e atrizes, incluindo advogados, contadores, assessores, estilistas e até os preparadores de papéis, especialistas que vão do ensino de línguas ao treinamento físico.
“Nós atuamos como curadores”, ele diz. “Há todo um ecossistema para que o artista consiga atuar no mercado.” Documentações como o visto de trabalho no exterior, por sua vez, são organizados com as produtoras envolvidas, que emitem uma carta-convite ao profissional.
Com talentos que decidam atuar fora do país, o processo envolve ainda a cooperação entre agentes. Buchi e James, por exemplo, já uniram forças para orientar Rodrigo Santoro no estrangeiro. O ator começou em Hollywood em uma época em que ainda se olhava feio para os estrangeiros.
“O Rodrigo é um grande símbolo de resiliência. Ele brigou contra todos os estereótipos que foram impostos, foi fiel ao que acreditava e conquistou o seu espaço no mercado americano”, diz Buchi.
Os dois agentes concordam que a comunicação entre brasileiros e americanos melhorou desde aquela época. “Há dez anos, quando eu contatava a representação de um artista no Brasil, eles não mostravam interesse. A gente ainda era um terreno estranho para eles”, afirma James. Ele compara os escritórios que se firmaram no Brasil hoje aos de países como o Reino Unido e a Austrália, historicamente mais acostumados à divisão entre o trabalho global e local do agenciado.
Para Buchi, a internacionalização do Brasil foi acelerada pelo streaming, o que ajudou os escritórios nacionais a se prepararem para a exportação de talentos. “Se a gente considera os Estados Unidos como contratantes, o agente de lá atua de forma direta, viabilizando a negociação com advogados e sindicatos.”
A partir daí, cada carreira é diferente da próxima. Com atores e atrizes, os agentes buscam manter o artista em evidência, criando demanda. Já criativos como diretores, fotógrafos e montadores precisam do reconhecimento de seus pares e dos trabalhos como um todo.
Tapete vermelho
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Há ainda a decisão entre sair do país ou seguir vivendo no Brasil. Antes um passo fundamental para conseguir papéis, a migração deixou de ser obrigatória graças aos processos virtuais de seleção do elenco, feitos com gravações digitais e videochamadas.
Chuck James é um dos que defendem as viagens pontuais para os Estados Unidos. “Em vez de pedir para a pessoa fazer as malas e abandonar a família por seis meses, eu prefiro separar cinco dias úteis e a bateria de 1 milhão de reuniões”, diz o americano. Yohji Buchi, por sua vez, prefere a abordagem tradicional. “Isso contribui para contratações de última hora e aumenta o convívio com profissionais de lá.”
Importante mesmo é manter a ligação com as próprias raízes. Os dois agentes defendem o reconhecimento do artista pelos brasileiros como pontapé de qualquer trajetória internacional, mas definem a manutenção do vínculo como um segundo passo crucial do sucesso.
“Tudo na carreira sempre é impulsionado por todo o resto”, diz James. “Eu já tive clientes que me disseram que nunca mais voltariam à França ao se tornarem celebridades globais. Eu entendo, mas você tem que lembrar sempre do festival que te revelou, que há mais gente surgindo por lá. Torço para que mais pessoas entendam isso.”
noticia por : UOL





