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Cuiaba - MT / 3 de agosto de 2026 - 8:53

Como o partido antissistema da Itália se tornou parte do sistema

“Deveríamos mudar a política, mas foi a política que nos mudou.” Mais do que um simples desabafo, o pronunciamento de Beppe Grillo contra Giuseppe Conte e a atual classe dirigente do Movimento 5 Estrelas soa como um ato de acusação contra a criatura política fundada por ele próprio. O fundador, agora afastado dos novos arranjos internos, falou de um Movimento que teria perdido sua identidade, substituindo a escuta aos cidadãos pela escuta às pesquisas de opinião e a ambição de transformar as instituições pela busca por cargos. Palavras duríssimas, às quais Conte respondeu reivindicando as batalhas políticas conduzidas pelo M5S e lembrando as próprias oscilações de Grillo nos últimos anos.

O confronto, no entanto, vai muito além do tradicional acerto de contas entre fundador e sucessor. Representa, de fato, a fotografia de um Movimento que, a mais de quinze anos do seu nascimento, parece ter progressivamente arquivado muitos dos princípios que haviam decretado seu sucesso eleitoral.

A identidade originária do “grillismo” baseava-se em alguns pilares muito claros: a rejeição da política profissional, a rotação de cargos, o limite rigoroso de dois mandatos, a aversão às correntes internas e a convicção de que o cidadão temporariamente emprestado às instituições era preferível ao político de carreira. Eram os anos do lema “um vale um”, dos “cidadãos no Parlamento” e da ideia de que a permanência longa demais nas instituições produzia inevitavelmente privilégios, compromissos e distanciamento da realidade.

Hoje, porém, o cenário parece profundamente diferente. O Movimento tornou-se um partido estruturado, com uma liderança consolidada, órgãos internos e uma rede de dirigentes que vivenciam agora de forma estável a dimensão política. Uma evolução talvez natural para qualquer força de governo, mas que inevitavelmente entra em tensão com os discursos das origens.