Alunos de pré-escolas em Nova York poderão receber até US$ 3.000 (cerca de R$ 15.600) da prefeitura para custear a educação universitária. O plano, proposto por legisladores municipais, tem como objetivo combater a desigualdade de renda e ampliar o acesso ao ensino superior.
As contribuições únicas estão entre os maiores investimentos em programas de poupança infantil já propostos nos Estados Unidos. De acordo com a proposta da Câmara Municipal —que expandiria uma iniciativa já existente—, estudantes de famílias de baixa renda receberiam US$ 3.000, enquanto os demais receberiam US$ 1.000 (R$ 5.200). Ambos os valores superam com folga a contribuição atual de US$ 100 (R$ 520).
Com o custo da faculdade nas alturas e a desigualdade social em crescimento, os defensores da expansão argumentam que o investimento proposto pode ajudar de múltiplas formas: ofereceria uma base mais sólida para que as crianças ingressem na universidade, permitindo que concluam os estudos com menos dívida estudantil e com maior capacidade de acumular patrimônio ao longo da vida. Mesmo sem aportes adicionais, US$ 3.000 poderiam se transformar em US$ 8.500 (R$ 44.200) até o momento em que o aluno entrasse na faculdade, com base na taxa de retorno atual do programa.
“Se realmente queremos combater a desigualdade de renda, ajudar os nova-iorquinos a progredir e enfrentar a crise de acessibilidade financeira, precisamos fazer um investimento muito maior para essas crianças”, afirmou Julie Menin, presidente da Câmara Municipal.
A proposta partiu de Menin, que liderou a criação do programa de poupança há mais de uma década, quando ocupava o cargo de comissária de defesa do consumidor da cidade. O custo anual seria de US$ 180 milhões (R$ 936 milhões) —uma fração ínfima do orçamento municipal de US$ 125 bilhões (R$ 650 bilhões)—, contra os atuais US$ 12,7 milhões (R$ 66 milhões). Ela classificou a iniciativa como sua maior prioridade orçamentária.
A proposta, porém, depende do aval do prefeito Zohran Mamdani, que fez campanha com foco em acessibilidade financeira, mas deixou de incluí-la em seu orçamento executivo de maio, que ainda não foi finalizado, mas as negociações seguem em curso. A administração Mamdani sinalizou que o prefeito está aberto a ampliar as contribuições para as contas universitárias.
“Nossa cidade tem a responsabilidade de colocar cada criança no caminho do sucesso”, disse Jenna Lyle, porta-voz de Mamdani. “Esse compromisso guia nosso trabalho diário em prol de uma cidade mais acessível, onde os nova-iorquinos possam criar suas famílias.” Ela acrescentou que a administração debaterá a proposta com a Câmara Municipal.
Lá Fora
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Os planos de poupança universitária existem há mais de 40 anos. Conhecidas como planos 529, essas contas permitem que as famílias depositem dinheiro com crescimento isento de impostos, a ser usado futuramente em despesas como mensalidades e material didático para faculdades ou escolas técnicas. Historicamente, as famílias mais abastadas têm sido as principais beneficiárias desse modelo.
O programa nova-iorquino, batizado de NYC Kids Rise, se diferencia em pontos importantes: as contas são abertas automaticamente para todos os alunos de pré-escolas públicas, incluindo três quartos das escolas conveniadas que aderiram à iniciativa. Desde que o programa foi lançado como piloto no Queens, em 2017, mais de 380 mil crianças já tiveram contas abertas em seu nome.
Cada vez mais estados e municípios têm adotado iniciativas semelhantes. Connecticut, por exemplo, investe US$ 3.200 (R$ 16.640) para crianças de famílias de baixa renda logo ao nascer. No âmbito federal, o governo criou recentemente contas de investimento individuais para crianças —chamadas de “contas Trump”—, com um aporte inicial de US$ 1.000.
As contas do NYC Kids Rise já acumularam mais de US$ 85 milhões (R$ 442 milhões). O programa também permite que empresas locais, grupos comunitários e vizinhos façam doações, que podem ser distribuídas entre os alunos de uma mesma escola.
Foi o que fez Mariela Regalado, que organizou uma campanha de arrecadação comunitária para os estudantes da escola de sua filha, a PS 319, em South Williamsburg, no Brooklyn. As contribuições foram suficientes para depositar US$ 86 (R$ 447) na conta de cada aluno na pré-escola e no primeiro ano.
Orientadora de carreira e ensino superior, Regalado abriu um plano 529 para a filha logo após o nascimento e o vinculou à conta do NYC Kids Rise. Aos seis anos, a menina já acumula quase US$ 7.900 (R$ 41.080) para a faculdade.
“Eu fui literalmente escravizada por dívidas de empréstimo estudantil”, desabafou Regalado, de 36 anos. Seu saldo devedor, de cerca de US$ 48.000 (R$ 249.600), pode levar mais três décadas para ser quitado. “Não quero esse destino para ela.”
Programas como o NYC Kids Rise mudam a forma como crianças e famílias enxergam suas perspectivas e possibilidades de futuro, avalia William Elliott III, professor de serviço social na Universidade de Michigan e referência nas pesquisas sobre poupança universitária e desigualdade de renda.
O componente financeiro —especialmente a dimensão comunitária da arrecadação— transmite às crianças a mensagem de que sua cidade e seus vizinhos acreditam nelas, destaca Elliott. As contas também abrem a possibilidade de concluir a graduação sem dívidas e começar a construir patrimônio desde o primeiro dia.
“Precisaremos pensar cada vez mais em como redistribuir a riqueza para preservar a meritocracia que tanto almejamos”, disse ele. “Isso vai exigir programas como este — que não enxergam a renda apenas como saída da pobreza, mas reconhecem que o patrimônio é peça fundamental na construção do futuro das crianças.”
noticia por : UOL






