O presidente do Paraguai, Santiago Peña, de 47 anos, era visto como o futuro do Partido Colorado antes de ser forçado a renunciar por seu envolvimento com o escândalo do Ueno Bank. O banco digital, onde quase metade dos paraguaios eram correntistas, teve seu funcionamento suspenso pelo banco central do país após problemas de solvência e indícios de irregularidades.
Nascido em Assunção em 1978, de pai paraguaio e mãe argentina, Santiago Peña Palacios é descendente direto de José Gaspar Rodríguez de Francia, pai fundador do país que governou o Paraguai como ditador por quase 30 anos.
Formado nos Estados Unidos —cursou administração pública na Universidade de Columbia, em Nova York—, foi professor de economia na Universidade Católica de Assunção e professor convidado da Escola de Gestão Pública da Universidade George Washington, também nos EUA.
Começou sua carreira no serviço público em 2000, quando se tornou economista do banco central do Paraguai, posição que ocuparia até 2009. Após um breve período no FMI (Fundo Monetário Internacional), foi selecionado em 2012 como um dos quatro diretores do banco central.
Durante todo esse período, foi filiado ao PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico), principal sigla de oposição ao Partido Colorado, que controla a política paraguaia desde 1947. Os colorados, incluindo o ditador e notório pedófilo Alfredo Stroessner (no poder entre 1954-1989), ocuparam a Presidência de forma praticamente ininterrupta durante todo esse período, salvo curto intervalo entre 2008 e 2013.
Em entrevista à Folha em 2023, Peña elogiou o período de Stroessner à frente do Paraguai, dizendo que o ditador, “sem a preocupação com sucessões presidenciais”, foi capaz de “desenhar políticas de longo prazo e mantê-las”. “Stroessner foi responsável por mais de 50 anos de estabilidade no Paraguai. Mas exagerou, e de nenhuma maneira sou a favor dos abusos de direitos humanos cometidos no período”, afirmou na ocasião.
Em 2015, quando tinha apenas 36 anos, Peña foi selecionado por Horacio Cartes, então presidente do Paraguai e hoje líder do Partido Colorado, para se tornar ministro da Fazenda do país. Na época, foi descrito por Cartes como “um jovem brilhante”, e, em outubro de 2016, se filiou ao partido, consolidando seu nome como sucessor e quadro jovem da sigla governista.
Em 2017, o político se afastou do cargo para concorrer nas primárias coloradas para presidente, sendo derrotado por Mario Benítez, que vinha de uma ala da sigla que se opunha a Cartes —ele próprio não podia concorrer, visto que a reeleição é barrada no país. Peña, entretanto, manteve-se próximo do poder, aceitando um cargo para chefiar o banco Amambay, controlado por uma empresa de Cartes.
Ao fim do mandato de Benítez, Peña concorreu novamente e venceu tanto as primárias do Partido Colorado quanto as eleições gerais em abril de 2023, tornando-se presidente do Paraguai aos 44 anos, o mais jovem desde a redemocratização, em 1989.
No poder, sua gestão foi marcada por uma liberalização da economia, recebendo da agência Moody’s, dos Estados Unidos, a classificação de bom pagador e conduzindo o país a um boom econômico. O Paraguai teve um crescimento de 6,6% do PIB em 2025 —segundo maior índice do ano na América do Sul, atrás apenas da Guiana. O Brasil, a título de comparação, cresceu 2,3% no ano passado.
Ao mesmo tempo, o Paraguai, importante rota no tráfico de drogas internacional, enfrenta um aumento da criminalidade e da penetração por facções do crime organizado, principalmente o brasileiro PCC. A sensação de insegurança e a corrupção do Partido Colorado levaram a protestos esporádicos de rua em 2025 contra o governo de Peña.



