Os duelos que definiram o debate na TV muito antes do confronto entre Flávio e Lula

Em setembro de 1960, Richard Nixon liderava a corrida pela Casa Branca e ouviu dos próprios assessores que um debate na televisão com John F. Kennedy só serviria ao adversário. Vice-presidente e debatedor experiente, aceitou mesmo assim. Cerca de 70 milhões de americanos assistiram ao primeiro encontro, e Nixon perdeu a eleição por pouco mais de 100 mil votos.
Os quatro debates daquele ano e os duelos entre Valéry Giscard d’Estaing e François Mitterrand, na França de 1974 e 1981, viraram exemplo de debate eleitoral porque puseram dezenas de milhões de pessoas diante de argumento e resposta ao vivo, em eleições decididas por margens pequenas.
O Brasil de 2026 chegou ao segundo turno sem nenhum confronto entre os dois candidatos mais votados, separados por menos de dois pontos percentuais, e só os viu frente a frente no domingo (18), na Band.
O favorito que aceitou o convite
O desafio partiu de Kennedy, e a Biblioteca Kennedy trata os encontros que se seguiram como os mais importantes da história americana desde os debates entre Abraham Lincoln e Stephen Douglas, em 1858. Para que os dois aparecessem sozinhos diante das câmeras, o Congresso precisou suspender temporariamente a regra que obrigava as emissoras a dar espaço igual a todos os candidatos.
O primeiro encontro, em 26 de setembro, saiu de um estúdio da CBS (rede de televisão americana) em Chicago, e um dos negociadores de Kennedy fez questão dos planos de reação, que mostram um candidato enquanto o outro fala. Uma pesquisa feita depois do debate já mostrava Kennedy à frente, com 49% contra 46%. Já eleito, ele disse que a televisão, mais do que qualquer outra coisa, havia mudado o resultado.
Nixon não voltou a debater. Em 1968 chegou à Presidência sem enfrentar o candidato democrata diante das câmeras, e em 1972, já no cargo e com folga nas pesquisas, repetiu a recusa, como Lyndon Johnson havia feito em 1964. Os americanos passaram dezesseis anos sem debate presidencial, até que Gerald Ford, presidente e atrás nas pesquisas, aceitou enfrentar Jimmy Carter em 1976.
Quatro anos depois, já no cargo, Carter recusou um debate que incluía um candidato independente e aceitou um único encontro com Ronald Reagan, a uma semana da votação. Cerca de 80 milhões de americanos assistiram. Nas considerações finais, Reagan pediu que cada eleitor se perguntasse se estava melhor do que quatro anos antes, se ficara mais fácil fazer compras e se havia mais ou menos desemprego no país. Carter, que liderava as pesquisas dias antes, perdeu por quase dez pontos. Em 1987 foi criada a Comissão de Debates Presidenciais, e a realização dos encontros deixou de depender do cálculo de quem estava na frente.
Treze condições para evitar a revanche
Os franceses só conheceram o formato em 1974, quando a morte do presidente Georges Pompidou, em abril, antecipou a eleição e pôs frente a frente Giscard, ministro das Finanças do governo conservador, e Mitterrand, candidato único da oposição de esquerda, empatados nas pesquisas. Em 10 de maio, cerca de 25 milhões de franceses assistiram ao primeiro debate de segundo turno da história do país.
Mitterrand dizia que a repartição do crescimento era questão de coração, e não só de inteligência, quando Giscard, dez anos mais novo, respondeu com a frase que ficou: “O senhor não tem o monopólio do coração.” Na mesma noite, tratou o adversário como um homem do passado. Giscard venceu por 426 mil votos, e décadas depois seus arquivos pessoais mostraram que a resposta sobre o coração havia sido preparada com antecedência.
Em 1981, Giscard disputava a reeleição com a economia francesa em crise, e Mitterrand, que guardava má lembrança do debate anterior, não queria a revanche. Segundo o relato de seu assessor de televisão, a ideia era apresentar exigências que o presidente recusaria, para depois acusá-lo de fugir do confronto. A equipe listou treze condições, entre elas a proibição dos mesmos planos de reação que Kennedy havia defendido em 1960, e o lado de Giscard aceitou todas.
Em 5 de maio, diante de cerca de 30 milhões de telespectadores, Mitterrand devolveu o rótulo de sete anos antes e disse que o adversário havia se tornado “o homem do passivo”, referência ao balanço econômico do governo. Quando Giscard quis testá-lo sobre a cotação do marco alemão, respondeu que não era aluno dele e, depois de alguns segundos, deu o número exato. Cinco dias depois, tornou-se o primeiro presidente socialista da Quinta República, regime fundado em 1958, e as regras desenhadas para inviabilizar o debate continuavam valendo três décadas depois.
Uma semana antes da votação
O primeiro turno brasileiro de 2026 teve um único debate presidencial na televisão, o menor número desde 1998, quando Fernando Henrique Cardoso, candidato à reeleição, recusou todos os convites. Pela primeira vez em 28 anos, os dois primeiros colocados nas pesquisas não foram a nenhum.
Lula faltou ao da Band, em agosto, e Flávio, que condicionava sua presença à do adversário, também ficou de fora. Para o último, na Globo, em 1º de outubro, Lula avisou na véspera que daria entrevista a um podcast no mesmo horário, e Flávio confirmou que iria mesmo sem ele. As regras, assinadas por todos os partidos, inclusive o PT, previam que o púlpito de um ausente ficaria no cenário com o nome dele.
Horas antes do programa, a coligação de Lula obteve no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma liminar que proibia o púlpito vazio e as perguntas dirigidas ao presidente, enquanto uma decisão do Supremo, a pedido de outro partido, mandava incluir mais um candidato. Meia hora depois da liminar, Flávio desistiu, alegando censura. A Globo atribuiu o cancelamento às decisões judiciais, que classificou como interferência indevida, e associações de imprensa protestaram contra a mudança das regras a três dias da votação.
No segundo turno, a Record desmarcou seu encontro alegando incompatibilidade de agendas, e o debate da Band, no domingo, foi o primeiro entre os dois. As regras deixavam os candidatos livres para circular pelo estúdio. A primeira pergunta tratou da redução da maioridade penal, que os dois responderam sem entrar no efeito da medida, segundo a CNN Brasil.
Lula cobrou explicações sobre o financiamento do Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que recebeu dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Flávio perguntou sobre uma reunião reservada do presidente com o mesmo Vorcaro no Palácio do Planalto e voltou mais de uma vez às investigações que envolvem o filho mais velho de Lula, que desafiou o adversário a abrir as contas bancárias para o país descobrir “quem é ladrão”. Numa pergunta sobre produtividade, no último bloco, Flávio defendeu ampliar o acesso à internet, e Lula falou em inovação industrial e economia verde.
A disputa, inclusive, chegou à plateia do debate. A primeira-dama Janja foi advertida pela produção da Band depois de se manifestar durante uma fala de Flávio, e Sidônio Palmeira, que comanda a comunicação de Lula, foi reclamar com o senador num intervalo e depois bateu boca com o chefe de comunicação da campanha adversária. Nas considerações finais, quando Flávio passou para trás de Lula, a mediadora lembrou que ele podia circular e pediu, como gentileza, que deixasse o presidente concluir. A fala de Flávio, em seguida, também foi interrompida pelos gritos das comitivas.
A Globo marcou o último encontro para sexta-feira (23), dois dias antes da votação, e a presença de Flávio ainda não estava confirmada no fim de semana. As pesquisas mais recentes mostram uma disputa dentro da margem de erro, com uma vantagem numérica do candidato do PL.
Em 1980, a uma semana da votação, Reagan usou suas considerações finais para perguntar aos americanos se ficara mais fácil fazer compras do que quatro anos antes. No Brasil, uma eleição que pode ser decidida por dois pontos terá tido, na melhor hipótese, dois encontros entre os finalistas, e o primeiro terminou com os apresentadores pedindo silêncio à plateia enquanto os candidatos tentavam fazer suas considerações finais.
noticia por : Gazeta do Povo


