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Cuiaba - MT / 18 de outubro de 2026 - 10:45

Como São Francisco de Assis inspirou Chesterton

Chesterton desfrutou durante toda a sua vida de uma amizade com São Francisco de Assis. Quando era um garotinho, muito antes de ter sequer uma noção da natureza do catolicismo, seus pais leram para ele a história de um homem que havia renunciado a todas as suas posses — inclusive às roupas que vestia — para seguir a Cristo na santa pobreza. Desde o momento em que Gilbert, com os olhos bem abertos, ouviu pela primeira vez a história de São Francisco, soube que havia encontrado um amigo. Assim, muito antes de se submeter à razão de Roma, Chesterton já havia sucumbido ao encanto de Assis.

Talvez inevitavelmente, ao deslumbre infantil seguiu-se a dúvida adolescente. Enquanto avançava às cegas em direção à maturidade, no início da década de 1890, Chesterton sucumbiu temporariamente ao sedutor poder dos decadentistas. Sob a carismática e iconoclasta sedução de Oscar Wilde, o mundo de sua juventude parecia submetido à enlouquecida e enlouquecedora influência daqueles que preferiam as sombras do pecado e do cinismo à luz da virtude e da verdade. O próprio romantismo havia colocado a máscara da escuridão. Nessa atmosfera carregada de trevas, o jovem Chesterton escreveu um poema sobre São Francisco de Assis, publicado em novembro de 1892. As perguntas que formulava constituíam uma busca por respostas em um mundo dominado pela dúvida:

Não surge acaso uma pergunta de sua palavra de “irmão, irmã”, que vem daquele sonhador solitário do qual hoje nos afastamos,

se acaso as vidas que comoveram nossos irmãos hão de nos deixar às portas da escuridão?

O que seria o céu se tudo o que amamos ficasse inteiramente para trás?

É a casa luminosa de Deus o que habitamos, ou uma abóbada de escura confusão…?

Este poema, dedicado ao “sonhador solitário” de Assis, ilumina a escuridão da adolescência de Chesterton. O jovem poeta, buscando dar sentido às visões contrapostas da realidade que competiam por sua adesão, começava a perceber que os decadentistas haviam expulsado o irmão Sol para poder adorar a irmã Lua. Três anos após a publicação deste poema, a decadência wildeana havia apodrecido na sordidez dos tribunais policiais. O próprio Wilde se arrependeria e seria recebido na Igreja Católica em seu leito de morte. Em sua conversão, ele não fazia senão seguir muitos dos outros decadentistas, tanto na Inglaterra quanto na França, que, tendo colocado os pés nas antessalas do inferno, haviam decidido, prudentemente, que não era um lugar onde desejavam passar a eternidade. Baudelaire, Verlaine, Huysmans, Beardsley, Johnson e Dowson haviam seguido todos o “caminho decadentista para Cristo”, arrependendo-se de seus pecados e abraçando o perdão amoroso que se encontra na Igreja Mãe.