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Cuiaba - MT / 12 de outubro de 2026 - 14:08

São Paulo Fashion Week desfila repertório alegórico em edição com menos grifes

Há poucos meses, o estilista Antonio Castro achava que estava desenhando uma coleção sobre a alegria de voltar para casa. O diretor criativo da Foz, que desfila no próximo domingo (18) na São Paulo Fashion Week, pegou o carro em São Paulo e dirigiu até Maceió, em Alagoas, para viver o trajeto que pretendia levar à passarela —mas descobriu outra coisa no acostamento.

“Foi uma volta para casa de questionamentos. Não me encontrei ainda em São Paulo, mas também não me encontro mais em Maceió”, ele diz, em seu ateliê, no bairro paulistano de Pinheiros. A coleção carrega referências de “Bye Bye Brasil”, o road movie de Cacá Diegues de 1980, e dos lares do interior vistos a partir da estrada. A conclusão de Castro é que não existe casa idílica à espera de ninguém.

Esse sentimento de quem já saiu de um lugar e ainda não chegou ao outro serve também ao evento que o recebe. A São Paulo Fashion Week, a SPFW, chega à sua 61ª edição, encerrando a comemoração de seus 30 anos. Paulo Borges, fundador e diretor criativo do evento, tem uma resposta pronta para quem pergunta o que vem na sequência. “Depois dos 30, volta para o zero. Na prática, significa refazer tudo conforme o mundo está hoje”, diz.

A semana de moda começa nesta terça (13), com desfile de Alexandre Herchcovitch na Fundação Armando Alvares Penteado, a Faap. Veterano do evento, ele também reflete sobre transições culturais e sociais, olhando para o “fin de siècle” dos anos 1890.

Até o domingo, serão 24 desfiles, boa parte deles concentrados no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no parque Ibirapuera. Outros se espalham pela cidade, como a Forca, que ocupa a praça Charles Miller, no Pacaembu, e a cearense Marina Bitu, que se apresenta no Alma Mater, edifício da década de 1920 no Ipiranga.

O tema que rege o evento vem de repertórios alegóricos, sem grandes otimismos. “Em momentos como esse, em que a sociedade está em transformação, as palavras perdem um pouco o sentido e os símbolos começam a surgir novamente”, diz Graça Cabral, uma das fundadoras da SPFW e curadora do Inmode.

A frase que guia a edição é de Ailton Krenak —”o futuro não existe, nós apenas o imaginamos”—, e a dupla a lê também como autobiografia —quando a SPFW foi pensada, em 1995, era algo que não existia.

O conceito ganha corpo numa exposição, com curadoria de Hanayrá Negreiros, montada no Pavilhão das Culturas Brasileiras. Ela partiu da espiral, símbolo da edição anterior, e de cosmologias racializadas para reunir 12 artistas, entre eles Goya Lopes, Aline Bispo e Silvana Mendes.

“Eu quis fazer um recorte pensando em imaginários brasileiros e quais símbolos podem contar a história do nosso país, inclusive neste momento. Um recorte político da curadoria é pensar esses imaginários afro-brasileiros e originários”, diz Negreiros.

O andar superior, que abriga as salas de desfiles, virou o que a curadora chama de pavimento baiano —um “ouroboros” de Goya Lopes, artista têxtil que também é pioneira da moda afro-brasileira, ocupa uma parede inteira, ao lado de telas de Alberto Pitta e de uma escultura de Emanoel Araújo.

No térreo, pinturas e estampas de nomes como Patrícia Kamayurá, Larissa de Souza, Jacqueline Paz e De Saturno aparecem ampliadas e adesivadas nos vidros do pavilhão de Oscar Niemeyer.

Esta é a primeira edição da semana de moda paulistana depois do Rio Fashion Week, em abril. Os dois eventos são tocados pela IMM, empresa de entretenimento que assumiu a gestão dos desfiles. É também a primeira vez que a SPFW acontece anualmente —com o novo calendário, o Rio de Janeiro fica com o primeiro semestre e São Paulo, o segundo.

As semanas não devem se copiar. “Tem características que são muito próprias do Rio e que aqui não funcionam. E tem características daqui que também não funcionam lá”, diz Paulo Borges. Uma marca pode escolher desfilar nas duas capitais —como a carioca Handred, que participou em abril e se apresenta no Cultura Artística na sexta (16).

O que São Paulo pode tentar importar do Rio é o tom de entretenimento, voltado a um público mais jovem, que vai ao evento para viver a experiência e não por ofício. Borges atribui parte do sucesso carioca ao desejo represado de uma geração que nunca viu um evento assim na cidade, órfã de semanas de moda há uma década.

“Nós testaremos ideias entre uma cidade e outra. É uma boa troca. Se funcionar, muito que bem; se não funcionar, mudamos de rota”, diz, reforçando que trabalha nos bastidores, abrindo espaço para que o Rio funcione com profissionais locais.

A transição mais visível da SPFW, porém, está na grade. A última edição, em outubro do ano passado, apresentou 38 nomes. Agora são 24, número resultado de uma transição interna de calendário e uma migração de marcas que se apresentam fora do evento.

LED e Gustavo Silvestre, que faziam parte do calendário, fizeram desfiles independentes nas últimas semanas, assim como Walério Araújo e Weider Silveiro, que armam uma passarela dupla na noite desta segunda (12).

Há uma mão forte da organização nessa transição, que encerra uma tentativa de renovação dos quadros da SPFW, que buscou um fluxo de novos criadores nos últimos anos, especialmente após a pandemia. Borges diz que os cortes são resultado de um acompanhamento iniciado há quase três anos, com análise de desfiles e redes sociais e questionários às marcas sobre vendas e planos de negócios.

O primeiro passo foi pedir que algumas marcas desfilassem só uma vez por ano. O segundo, convidar parte delas a dar um tempo. “Ninguém foi expulso, não há portas fechadas”, afirma.

O critério, segundo ele, não é volume de vendas, mas desenvolvimento do negócio. “Tinha marca que estava com a roupa de três estações atrás no site, outras que faziam um desfile imenso, mas não conseguiam produzir. Você não precisa vender 10 mil peças, não é essa a questão. Mas qual é a qualidade disso, qual é o contexto, qual é a narrativa, quem é o público? Tudo isso tem que entrar na soma.”

A conta também pesa para o evento. “Na hora que liga a luz do gerador, bota segurança, limpeza, todas as equipes, cada horário de desfile custa mais de R$ 300 mil”, afirma. Por isso, Paulo tem tratado cada interessado a entrar no lineup com pragmatismo. Nesta edição, as novatas são a Ammi, especializada em crochê, e a mineira Hisha, que debutou no Rio em abril.

O enxugamento tem um efeito colateral que a SPFW não contorna —diminuiu a proporção de marcas comandadas por criadores negros, num evento que ajudou a pautar o tema com regras de equidade racial no casting e com o projeto Sankofa, que levou à passarela marcas como Meninos Rei e Ateliê Mão de Mãe. Daquele grupo, apenas a Santa Resistência segue no calendário.

“Essas regras não mudaram. Não tem a ver com cor de pele, tem a ver com estrutura”, afirma Borges. “Não dá mais para colocar na passarela uma marca que está muito desestruturada.”

Para ele, um trabalho de base precisa voltar a ser feito fora da passarela principal, em busca de novos nomes. O projeto Estufa, que revelou nomes como a Aluf, deve ser relançado no ano que vem. Em paralelo, afirma que tem aberto conversas de uma possível parceria com a Casa de Criadores. “A São Paulo Fashion Week tem que ser muito criativa. Mas essas experimentações precisam ser baseadas em processo, não podem ser só um devaneio criativo”, afirma.

Enquanto isso, aceita o papel que lhe cabe. “Se eu assumisse o papel de ceifador, estaria fazendo a coisa mais errada do mundo, porque aí não faço ninguém crescer”, diz. “Sempre alguém tem que ser responsabilizado. Não tem problema que seja eu, desde que as pessoas reflitam sobre o próprio negócio.”

noticia por : UOL

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