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Cuiaba - MT / 9 de setembro de 2026 - 9:21

Escolas ribeirinhas de cidade do Amazonas ganham banheiros e estrutura sustentável

O ambiente de uma escola em que a professora precisava dormir atrás da lousa depois do expediente, em uma casa sem nenhum banheiro, fez o empresário paulista Ruy Carlos Tone, 59, se espantar com a precariedade da educação ribeirinha na Amazônia.

“Foi determinante. Eu senti uma vergonha enorme de estar ali”, lembra, revendo o local em vídeo gravado no celular há cerca de cinco anos.

Junto com a vergonha, veio a ideia de criar uma iniciativa para melhorar as salas de aula e a moradia dos professores, que, geralmente, vivem junto às escolas quando lecionam em comunidades afastadas.

Desde então, mais de duas dezenas de instituições, onde estudam 600 alunos, foram reformadas ou construídas pelo Projeto Educação Ribeirinha, da Fundação Almerinda Malaquias, no Amazonas. A ONG, presidida por Tone, existe há 25 anos em Novo Airão (AM), oferecendo atividades no contraturno dos alunos, como artesanato com madeira reaproveitada da floresta.

Mas a organização nunca tinha construído escolas até então. A nova empreitada firmou-se com recursos de doadores e uma parceria com a secretaria de Educação da cidade de 15,8 mil habitantes, a quase 200 km de Manaus.

Até o final do ano, as 23 escolas públicas em comunidades ribeirinhas do município devem estar finalizadas, sempre acompanhadas de uma casa para o professor viver —21 unidades já foram entregues. Todas seguem um projeto de arquitetura sustentável do Atelier Marko Brajovic, escritório com sede em São Paulo.

O desenho das casas foi premiado no If Design Award de 2024, competição internacional promovida na Alemanha, como o melhor da categoria arquitetura pública.

Elas são de madeira, material que pode ser extraído na própria comunidade, que recebe pela retirada das árvores necessárias para a obra. Também há a vantagem de que poderão ser reparadas no futuro com maior facilidade, o que não ocorria com as construções de alvenaria, algo que praticamente não se usa à beira dos rios amazônicos.

Assim, as novas escolas não destoam da tradição ribeirinha, mas também não ficam atrás na aparência, ainda que com custo considerado baixo. Vão de R$ 100 mil a R$ 200 mil, a depender do tamanho necessário para a quantidade de alunos.

Com telhado alto, ideal para a circulação do ar em meio ao calor, elas, via de regra, viram a construção mais alta de cada vilarejo. Isso também não é por acaso.

“Tinha que ser uma construção que colocasse respeito para a educação”, explica Tone, que é sócio do hotel Mirante do Gavião, em Novo Airão, e da empresa de ecoturismo em expedições de barco Katerre —ambas sãodoadoras do projeto. “A ideia é que as crianças, desde o começo, enxerguem como a edificação mais bonita da comunidade, um lugar importante.”

Outro destaque pode até parecer corriqueiro, mas não é: todas elas têm banheiro. Antes, via de regra, alunos e professores precisavam improvisar o espaço de higiene no mato ou no próprio rio. Agora, em diversas comunidades, elas se tornaram as primeiras construções a terem uma estrutura desse tipo.

Isso reflete uma realidade maior na região Norte, a mais prejudicada no Brasil por falta de banheiros em escolas públicas rurais de ensino fundamental, mostra levantamento publicado em abril por pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e da PUC Minas.

Segundo o estudo, 27,5% das escolas do tipo na região não tinham banheiro. O trabalho se baseou em informações de 2011 a 2023 provenientes do Censo Escolar da Educação Básica, coordenado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

De modo geral no país, apontam os dados, as escolas de pequeno porte, com até dez alunos, e as localizadas em terras indígenas são as que mais sofrem com falta de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

Para a professora Adriane Filgueiras, que leciona na Comunidade Quilombola do Tambor, às margens do rio Jaú, dentro do Parque Nacional do Jaú, a falta de banheiro gera uma grande dificuldade para os alunos. “No período de chuva, as crianças precisam sair [para fazer as necessidades] e voltam molhadas”, conta.

Passada a construção das escolas, o Projeto Educação Ribeirinha quer se voltar justamente à melhoria do ensino de questões ambientais —muitas delas profundamente ligadas à vida dos alunos, como a ausência de saneamento básico e a necessidade de conservar a biodiversidade. Na região, espécies de tartarugas, por exemplo, são ameaçadas de extinção pelo consumo humano da carne do animal.

Para isso, a fundação começou a organizar dias de treinamento e formação para os professores e espera expandir a iniciativa com recursos de editais públicos.

Outra nova frente é a construção de escolas na Terra Indígena Waimiri Atroari, na mesma região. Caciques procuraram a ONG para replicar o projeto já utilizado nas comunidades ribeirinhas. O objetivo é erguer sete escolas para atender 800 alunos de 40 aldeias ao longo do rio Negro.

Os waimiris atroaris historicamente organizaram sozinhos a educação no território, com educadores do próprio povo, além de funcionários contratados. Agora, as lideranças indígenas desejam integrar os alunos na rede pública regular.

A reportagem viajou a convite da Expedição Katerre.

noticia por : UOL

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Cuiaba - MT / 9 de setembro de 2026 - 9:21

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