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Cuiaba - MT / 22 de agosto de 2026 - 22:46

Rancho raiz mantém tradição viva na Festa do Peão de Barretos

Bastou a dupla sertaneja Lourenço & Lourival começar a cantar a música para o público cativo que estava no rancho entoar a canção. A cada verso de “Franguinho na Panela”, os presentes ao rancho Ponto de Pouso, que fica numa área de mata ao lado do estádio de rodeios da Festa do Peão de Barretos, iam ao delírio.

O espaço no interior de São Paulo destoa do neosertanejo praticado no cenário nacional atual, mas não só por isso. Berrantes, música raiz, catira e até mesmo a gastronomia dos peões boiadeiros são mantidas no espaço de resistência, no primeiro ano de Barretos sem nenhum dos fundadores da Festa do Peão vivo.

São esperadas 990 mil visitas na festa até o dia 30, “infinitamente” superior às centenas, talvez um milhar, que frequentam o rancho raiz. Mas ele é considerado um lugar único em meio à modernidade do sertanejo, com batidas que muitas vezes aproximaram o estilo do pop.

“No recanto onde moro é uma linda passarela/O carijó canta cedo, bem pertinho da janela/Eu levanto quando bate o sininho da capela/E lá vou eu pro roçado, tenho Deus de sentinela/Tem dia que meu almoço é um pão com mortadela/Mas lá no meu ranchinho, a mulher e os filhinhos/Têm franguinho na panela”, cantava a dupla a estrofe inicial da canção, enquanto um grupo preparava a Queima do Alho, comida típica dos peões.

Preparada com carne de sol, paçoca de carne seca, feijão gordo e arroz carreteiro, a comida era servida no passado pelos cozinheiros que faziam parte das comitivas que conduziam a boiada pelos estradões em viagens que duravam até quatro meses.

Elas eram formadas pelo comissário (dono da comitiva), ponteiro (que conhecia o trajeto e ditava o ritmo do gado para controlar o tempo), rebatedores (que cercavam o gado, para ele não se espalhar), culatras (que fechavam o comboio), culatras mancas (que seguiam bois mais lentos ou que se feriram no caminho) e cozinheiro.

Ele era responsável por “queimar o alho”, daí o nome do prato, e muitas vezes viajava à frente do grupo para achar um lugar ideal para as refeições, de preferência perto de fontes de água, para conseguir lavar todos os utensílios após o uso.

Foi graças a essas comitivas que Barretos se transformou no ícone da cultura sertaneja no país. A cidade era passagem obrigatória das comitivas que levavam o gado entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, além de abrigar um frigorífico desde 1913, o Anglo.

Entre as brincadeiras dos peões nos horários de folga estava montar nos animais, o que culminou num rodeio em 1947, considerado o precursor da Festa do Peão, que estreou nove anos depois.

Coordenador do concurso da Queima do Alho, João Paulo Martins conta que o surgimento e proliferação dos caminhões fez com que o meio rodoviário fosse preferido para transportar o gado, que saía gordo da fazenda e assim chegava aos frigoríficos. Com as comitivas, os animais chegavam magros e precisavam ganhar peso até irem para o matadouro.

De acordo com ele, seguir as condutas dos peões boiadeiros no trato com os utensílios, o preparo da comida e ser fiel aos materiais usados no passado são também avaliados na disputa, e não só o sabor da comida em si. O foco é preservar a cultura.

“Não permitimos utensílios modernos nem adaptações que descaracterizem esse modo de preparo. O fogo tem de ser feito no chão, usando lenha e tralhas que sigam os padrões da época das comitivas”, disse.

O concurso será realizado neste domingo (23), com 20 comitivas de seis estados (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Paraná). No dia 30, haverá uma seletiva de comitivas iniciantes para definir duas vagas para a festa de 2027.

A associação Os Independentes surgiu em 1955, fundada por um grupo de 20 jovens barretenses. No ano seguinte, outros 12 se uniram a eles e realizaram a primeira edição da Festa do Peão. Não há mais nenhum fundador vivo e a festa deste ano será a primeira nessa condição.

Único remanescente do pioneiro evento de 1956, José Brandão Tupynambá, o Tupy (1927-2026), morreu em 3 de maio, e foi figura presente no parque desde sempre.

Esteve no show de Lourenço & Lourival relatado no início do texto e, em 2017, disse à Folha entender que a associação precisava atualizar o estilo musical predominante –”O sertanejo universitário é muito forte, atrai muito público”–, mas preferia a música caipira.

Questionado pela reportagem sobre como manter o legado dos pioneiros das festas de peão do país, o atual presidente de Os Independentes, Jerônimo Muzetti, conta que cresceu ao lado do recinto Paulo de Lima Corrêa, que sediou o evento do surgimento até a transferência para o Parque do Peão, nos anos 1980.

“Morei desde os sete anos de idade ao lado do recinto. Quando ingressei aqui, em 1987, acompanhei os presidentes da época e me espelhei neles. Só temos que agradecer a todos os membros que passaram por aqui. A associação é uma das maiores empresas de Barretos, isso é um aprendizado para todos”, disse ele, que ocupa a presidência pela 13ª vez —recordista no cargo.

A Festa do Peão será realizada até o próximo dia 30 no Parque do Peão (rodovia Brigadeiro Faria Lima, km 428), com ingressos de R$ 35 a R$ 534.

noticia por : UOL

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