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Cuiaba - MT / 20 de agosto de 2026 - 5:29

O dia em que um mestre da ficção científica contestou o aborto

Em 1982, Harrison Ford, no auge da fama depois de Star Wars e Indiana Jones, estrelou um filme sombrio sobre um detetive que caça androides fugitivos numa Los Angeles chuvosa e decadente. Chamava-se Blade Runner, virou clássico e definiu a cara da ficção científica pelas décadas seguintes. O que quase não se comenta é quem imaginou aquele mundo. O escritor americano Philip K. Dick  passou a vida rondando uma única pergunta: o que faz alguém ser humano? Anos antes, em 1974, ele levou essa pergunta ao terreno mais explosivo possível, num conto abertamente contra o aborto que a ficção científica preferiu esquecer.

Ao lado de Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Dick, morto aos 53 anos, é um considerado uma das maiores referências do gênero no século XX. Publicou dezenas de romances e mais de cem contos, quase sempre na pobreza. De suas histórias férteis saíram dezenas de filmes e séries de sucesso, como O Vingador do Futuro, Minority Report e o próprio Blade Runner.

Nada em sua personalidade lembrava a de um conservador. Dick era um homem da contracultura. Era viciado em drogas, defendia pautas de esquerda e até foi vigiado pelo FBI durante a Guerra Fria. Também viveu atormentado por supostas crises místicas e paranoias, muito provavelmente decorrentes do seu uso desenfreado de entorpecentes. Sua obra inteira gira em torno desta inquietação. Em Blade Runner, sua busca pelo real assume a forma dos replicantes, seres artificiais tão parecidos conosco que só um teste de empatia os denuncia.

O que diz o conto

The Pre-Persons, algo como “As pré-pessoas”, saiu em outubro de 1974, pouco mais de um ano depois de a Suprema Corte americana legalizar o aborto no país inteiro, na decisão Roe versus Wade. No conto, Dick imagina um futuro em que o Congresso resolveu o impasse pelo seguinte decreto: o aborto é permitido até o momento em que a alma entra no corpo. E na ficção esse instante foi definido, de forma arbitrária, como aquele em que a criança se torna capaz de fazer álgebra, por volta dos 12 anos. Antes disso, ela é apenas uma pré-pessoa.