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Cuiaba - MT / 4 de julho de 2026 - 13:13

Hobbit indonésio comeria carne que sobrava de presas de dragões-de-komodo

Embora tenham sido apelidados de hobbits, os humanos arcaicos da espécie Homo floresiensis tinham de encarar refeições bem menos apetitosas que a de seus homônimos da ficção, de acordo com uma nova pesquisa. Em vez de assar a carne que comiam, é possível que precisassem se contentar com os restos das presas dos temíveis dragões-de-komodo (Varanus komodoensis), nativos da mesma ilha da Indonésia em que viviam os hobbits.

Esse retrato um tanto asqueroso da dieta dos hobbits foi traçado por uma equipe internacional de pesquisadores em artigo que saiu nesta sexta (3) na revista especializada Science Advances.

Combinando uma série de abordagens, inclusive experimentos com dragões-de-komodo em cativeiro, eles tentaram verificar se os H. floresiensis de fato tinham as habilidades culinárias e de caça que os primeiros estudos sobre a espécie tinham proposto.

As peculiaridades desses hominínios (membros do grupo de primatas extintos e atuais que inclui os seres humanos modernos) provocam controvérsia desde o anúncio da descoberta da espécie em 2004. Encontrados na ilha de Flores –daí seu nome científico–, eles tinham apenas cerca de 1 m de estatura, tal como os hobbits dos romances de fantasia de J.R.R. Tolkien, e um cérebro pequeno, equivalente ao dos chimpanzés atuais.

Ao mesmo tempo, as primeiras escavações na caverna de Liang Bua, de onde vieram os ossos que possibilitaram a descrição da espécie, tinham identificado um conjunto de instrumentos de pedra e ossos de animais típicos de Flores, como roedores gigantes e um parente anão dos elefantes, do gênero Stegodon. Havia também alguns sinais da presença de fogo na caverna.

Com base nesses indícios, os pesquisadores concluíram que, apesar do cérebro diminuto, os hobbits indonésios eram cognitivamente avançados o suficiente para caçar essas presas e assá-las, tal como outros hominínios de porte bem maior. A proposta inicial é que eles fossem descendentes do Homo erectus, primeiro ancestral da humanidade a chegar ao Sudeste Asiático, podendo ter chegado à ilha acidentalmente, arrastados por tempestades, ou em embarcações rudimentares.

Outros paleoantropólogos duvidaram da validade da nova espécie, em especial por causa do tamanho muito pequeno do cérebro. Alguns estudos chegaram a afirmar que os H. floresiensis não passariam de H. sapiens com microcefalia (problema congênito que diminui o tamanho do cérebro e do crânio) ou outros problemas de desenvolvimento. No entanto, a opinião que acabou prevalecendo é que se trata mesmo de uma espécie diferente.

Os indícios mais recentes ligados à presença deles na ilha datam de 50 mil anos atrás –após esse período, chegam os primeiros H. sapiens à região, o que pode significar que os hobbits foram extintos pela competição com a nossa espécie.

Na nova pesquisa, a equipe liderada por Elizabeth Grace Veatch, ligada ao Museu Nacional de História Natural dos Estados Unidos e à Universidade de Tübingen, na Alemanha, decidiu examinar em detalhes as marcas deixadas nos ossos do “minielefante” Stegodon que foram encontrados na caverna de Liang Bua. O pulo do gato, porém, foi comparar os indícios de cortes e perfurações nos esqueletos com uma “cola” preparada experimentalmente.

Para isso, a pesquisadora e seus colegas ofereceram a carcaça de um bode adulto a um dragão-de-komodo criado em cativeiro e, em paralelo, usaram instrumentos de pedra feitos por eles próprios para cortar uma carcaça similar.

Todas as marcas produzidas por ambos os processos foram digitalizadas pela equipe de cientistas e transformadas em modelos 3D. Depois, eles verificaram se era possível usar métodos computacionais para distinguir o dano aos ossos produzido pelos dentes, garras e patas dos dragões-de-komodo daquele gerado pelo uso de instrumentos de pedra. Eles concluíram que era possível separar uma coisa da outra com um grau de confiabilidade superior a 80%.

Isso se deve, em parte, ao método bastante específico usado pelos grandes lagartos para consumir suas presas. Em vez de esmigalhar os ossos, como fazem certos mamíferos predadores, como as hienas, os dragões-de-komodo em geral preferem fixar os dentes em parte dos membros (na coxa, digamos) e fazer um movimento de puxada, como se estivessem descarnando a vítima.

Com base nessa lógica, a equipe analisou os ossos de Stegodon achados na caverna da ilha de Flores, correspondentes, segundo seus cálculos, a nove filhotes e dois adultos da espécie. Das 254 marcas nos ossos que teriam sido produzidas por predadores, 100 foram associadas aos dentes dos lagartos, enquanto as demais foram provocadas por instrumentos de pedra.

Além da predominância da ação dos dragões-de-komodo nas marcas, o que chamou a atenção é que elas se concentram nas partes mais carnudas, como o fêmur, enquanto as de ferramentas de pedra englobam áreas como os dedos e regiões da cabeça, mais pobres em músculos.

Também não há marcas de projéteis, que comprovariam o abate por seres humanos, e os poucos indícios de carvão vêm de uma camada de sedimentos que não parece estar associada diretamente aos ossos de Stegodon.

Somando tudo isso, dizem os autores do novo estudo, o mais provável é que os hobbits tenham se aproveitado de partes menos nobres dos pequenos paquidermes, talvez depois de uma distração dos lagartões. Seriam, portanto, essencialmente carniceiros.

noticia por : UOL

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Cuiaba - MT / 4 de julho de 2026 - 13:13

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