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Cuiaba - MT / 5 de junho de 2026 - 17:50

Sem-terra gourmet: como é a sorveteria do MST em São Paulo

Quem passa pela região da antiga Cracolândia, nos arredores da rua Helvétia, na Barra Funda, ainda se depara com dependentes químicos espalhados pelas calçadas, imóveis lacrados e lixo acumulado. Algumas quadras adiante, porém, a paisagem muda. Sobem torres residenciais novas, multiplicam-se cafés, bares e empreendimentos voltados a um público de renda mais alta. Foi nesse trecho, um dos mais gentrificados de uma área historicamente associada à degradação urbana de São Paulo, que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra resolveu abrir uma sorveteria.

A Gelado do Campo, como foi batizada, vende bolas artesanais a R$ 13, feitas com frutas orgânicas de “assentamentos da reforma agrária”, e se apresenta como a primeira sorveteria do movimento. Não é a primeira investida comercial do grupo, que já mantém lojas, marcas e livrarias. Mas talvez seja a mais simbólica, e a que reúne a maior coleção de contradições, a começar pelo próprio endereço.

Sobremesa à francesa

A casa nasceu de uma parceria de quatro anos entre o MST e a Escola de Sorvete, do chef Francisco Sant’Ana, confeiteiro formado na França. Gilmar Mauro, da coordenação nacional do movimento, classifica a empreitada como uma “batalha política”:  oferecer “fruta de verdade” contra os sorvetes industriais cheios de conservantes. A escolha do inimigo chama atenção. Na mesma rua em que funciona a sorveteria, não é difícil encontrar pessoas dormindo na calçada.

O preço, de R$ 13, chama atenção para uma loja que se apresenta como popular. Embora esteja alinhado ao praticado por gelaterias artesanais da cidade, uma tarde de sorvete para uma família de quatro, a R$ 52, consome boa parte do que um trabalhador recebe por um dia ao salário mínimo de R$ 1.621 que passou a valer neste ano. Não é, decididamente, um programa pensado para quem vive no entorno imediato.

O cardápio combina o regional e o militante. Ao lado de sabores como abacaxi com capim-santo, aparece o “Romeu e Romeu”, versão da clássica goiabada com queijo em que a Julieta é trocada por um par masculino. A pitada identitária conversa com a decoração, porque, no salão, além da obrigatória bandeira do MST, está fincada a da Venezuela chavista. Ali, como se vê, o sorvete já vem com opinião política.

Soft launching da revolução

A inauguração foi tratada como acontecimento, e a linguagem escolhida para anunciá-la entrega o espírito da coisa. Para divulgar a abertura, a marca recorreu ao termo “soft launching”, o anglicismo que as agências de publicidade usam para estreiar um produto aos poucos, medindo a reação do público antes do lançamento oficial. É no mínimo curioso ver uma iniciativa do MST falar a língua das startups que costuma denunciar.

Entre os presentes na festa estavam figuras da esquerda, como o deputado estadual Eduardo Suplicy, e um convidado improvável: o ilusionista Mister M, amigo do chef, que não fez número algum. Os influenciadores, esses sim, fizeram o seu, convertendo as bolas coloridas em conteúdo para as redes. Quem apareceu, porém, não foi o morador da quadra, mas o público da classe criativa, a ponto de se ver entre os frequentadores uma colorista de quadrinhos da Marvel. E, apesar de todo o alarde digital, um dos próprios vídeos publicados mostrava o salão longe de lotado. A multidão parecia existir mais na tela do que na calçada.

MST e o raio gourmetizador

A imagem que o movimento escolheu para vender o negócio talvez seja a contradição mais reveladora. Na divulgação publicada na página do MST, não há sorvete artesanal nem casquinha. Há um jovem entregando um picolé simples embaixo de uma tenda, cena de quermesse de assentamento, com ares de acessibilidade a qualquer um. Nada que lembre o que a loja de fato é, oferecendo um genuíno gelato servido em casquinha gourmet, sob um teto cuja faixa de aluguel, na região, supera os cinco mil reais. A propaganda preferiu uma imagem mais popular do que o produto efetivamente oferecido.

Uma receita de sucesso

Nada disso é novidade para quem acompanha o movimento. A poucos quarteirões da sorveteria, o MST mantém o Armazém do Campo, onde a fórmula se repete: uma livraria de esquerda de ambientação caprichada, com produtos agroecológicos e títulos militantes vendidos, não raro, acima do preço de mercado. Um movimento de raízes marxistas e da teologia da libertação, que prega o fim da propriedade privada, vai descobrindo na prática as virtudes da marca registrada, da margem de lucro e do cliente que volta pelo sabor. Não por acaso, a própria coordenação já fala em transformar a sorveteria numa rede, com novas unidades em outras regiões. A retórica continua sendo a da emancipação dos trabalhadores; os preços, os de qualquer empório de bairro nobre.

No fundo, o MST sempre foi, antes de tudo, uma máquina de narrativa, e a sorveteria não faz mais do que reforçá-la. Vende-se a fruta do assentamento como selo de origem e a luta camponesa como estética consumível. Para quem continua ali, entre os efeitos persistentes da antiga cracolândia e as transformações do mercado imobiliário, não sobra nem o sorvete nem a atenção. Um movimento que se diz a serviço dos mais necessitados tinha, bem ali, o cenário perfeito para demonstrar suas prioridades.

O resultado foi uma sorveteria voltada sobretudo a quem chega de fora para a foto, enquanto muitos dos problemas que marcam a região continuam praticamente inalterados. Faz todo sentido, então, que houvesse um ilusionista na festa. Mister M não precisou fazer mágica nenhuma, porque o truque já estava montado: poucos vendem ilusões com a competência com que o MST vende as suas.

noticia por : Gazeta do Povo

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Cuiaba - MT / 5 de junho de 2026 - 17:50

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