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Cuiaba - MT / 16 de março de 2026 - 17:25

Jürgen Habermas, morto aos 96, foi o último filósofo ilustrado

Jürgen Habermas (1929-2026) foi, durante décadas, o filósofo vivo de maior renome. Com sua morte, ocorrida em 14 de março, ele deixa uma obra vasta e influente. Além disso, consciente da importância dos meios de comunicação e da opinião pública, sempre combinou a filosofia sistemática com artigos de ocasião.

Desde que Habermas começou a colaborar na imprensa, nos anos 1950, até o final de 2025, seria difícil encontrar um tema de relevância política ou social sobre o qual ele não tivesse dado sua opinião refinada, fosse a pandemia de covid-19, a integração europeia ou, mais recentemente, a invasão russa da Ucrânia.

Habermas evoluiu de um marxismo que até Max Horkheimer considerou radical para uma social-democracia tolerante e aberta ao dissenso. Inspirou-se na obra dos primeiros membros da Escola de Frankfurt, mas não se fechou à influência da ciência social empírica nem às novas correntes filosóficas vindas dos Estados Unidos, o que o tornou um interlocutor válido não só na Europa, mas também além dela.

Habermas percebeu que na Ilustração havia uma dialética sombria; por isso, não se dedicou a defender a Modernidade em si, mas a endireitar seu curso.

A racionalidade comunicativa

Segundo a própria confissão do autor, a inquietação que animou seu trabalho foi a possibilidade comunicativa do ser humano — tema ao qual também foi levado por circunstâncias pessoais, já que nasceu com dificuldades para falar. Obcecado pelo horizonte da razão humana, Habermas percebeu que estavam certos aqueles que viram na Ilustração uma dialética sombria; por isso, não se dedicou a defender a Modernidade em si, mas propôs-se a endireitar seu rumo.

Entenda-se bem: para o pensador alemão, o problema não era a ciência ou o uso técnico e instrumental da razão. O inconveniente era que, levado pela onda do progresso, o ser humano havia esquecido que o futuro não estava apenas no avanço científico-técnico, mas em um amanhã mais emancipado moral e socialmente.

Habermas era hostil à metafísica e considerava reacionário o realismo filosófico. O que descobriu é que, além da razão instrumental — que percebe a realidade como meio —, nos processos de comunicação e discussão opera uma racionalidade — a comunicativa —, de caráter procedimental, que exige sustentar pretensões de validade e capacidade de argumentar. A seu ver, esse era o uso originário da razão.

O progresso moral e o europeísmo

Depois de descobrir esse modelo, Habermas propôs-se a construir uma teoria social comprometida tanto política quanto moralmente. É claro que a sociedade era um sistema e que a racionalidade instrumental melhorava o ambiente material e possibilitava o crescimento econômico. Mas, segundo Habermas, existe outra dimensão — o mundo da vida — que tem a ver com a ética e a justiça. As sociedades que não atendiam aos dois lados da moeda acabavam evoluindo de forma desigual, atoladas na injustiça.

Esse esquema explica suas intervenções públicas, quase sempre serenas. Sem demonizar o capitalismo, o que realmente incomodava Habermas era a pouca atenção aos valores, à justiça social ou à compaixão — ou seja, a assimetria entre a evolução técnica ou econômica e a moral ou política.

Além disso, seu principal mérito foi o de abrir espaço para fundamentar racionalmente a ética, o direito ou as decisões públicas, sem deixar o mundo da vida à mercê da irracionalidade, do delírio ou da ideologia.

Da mesma forma, ele defendeu o sonho europeu, a grande civilização ilustrada, contra o decisionismo e o intervencionismo armado. Seus escritos sobre o déficit democrático da União Europeia e a necessidade de priorizar a integração política e cívica, e não apenas a econômica, estão hoje em dia extremamente atuais.

Naturalismo e fé

A bioética habermasiana também foi especialmente relevante, sobretudo porque o pensador alemão colocou o foco no materialismo cientificista que subjaz à maior parte das abordagens sobre o ser humano. Esta talvez seja uma das contribuições que mais importância ganharão no futuro. O ensinamento de Habermas foi claro: nem as razões econômicas nem a cosmovisão científica são adequadas para justificar decisões de natureza moral.

Ao longo de sua extensa trajetória, Habermas, filósofo do diálogo, não hesitou em discutir com os principais pensadores de seu tempo: Foucault, Derrida, Rorty…

A visão habermasiana é integradora e moderna. O que criticou ao longo da vida foi a unilateralidade. Ele próprio evoluiu, especialmente em relação à sua opinião sobre as crenças religiosas. Embora sempre tenha defendido um ateísmo metodológico, com o tempo matizou seu laicismo: justamente ao constatar a ausência de valores e o empobrecimento ético da vida pública, viu nas mensagens religiosas um poderoso aliado para regenerar o espaço público e endireitar o curso da história.

Ao longo de sua extensa trajetória, Habermas, filósofo do diálogo, não hesitou em discutir com os principais pensadores de seu tempo: Foucault, Derrida, Rorty… Em 2004, debateu com Joseph Ratzinger em um encontro memorável na Academia Católica da Baviera; embora houvesse um profundo desacordo sobre a metafísica, coincidiram em que ignorar a religião no discurso público não só viola o direito dos cidadãos crentes, como também empobrece a vida pública.

Pontos fortes e fracos

É preciso dizer que, diante da evolução do pensamento contemporâneo, a importância de Habermas cresceu até mesmo entre aqueles que acreditam que sua obra tem algumas deficiências insuperáveis. Por um lado, nunca se desprendeu do legado marxista; por outro, a hostilidade à metafísica o levou pelo caminho de uma razão formal, procedimental, como se as regras do discurso determinassem o bem, a verdade ou o correto. Ou seja, apostou na democratização da racionalidade.

No entanto, não se pode negar que foi um filósofo de raça: sistemático, prolixo, com um saber enciclopédico. Quando se lê Habermas, sente-se que se penetrou no terreno sagrado da grande tradição filosófica. Por isso, foi o último ilustrado, o último pensador moderno, o último filósofo consciente de que a sabedoria não é uma impostura, nem um trabalho menor, mas depende daquele esforço sutil, porém árduo, do conceito de que falava Hegel. Descanse em paz.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Habermas, el último filósofo ilustrado.

noticia por : Gazeta do Povo

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Cuiaba - MT / 16 de março de 2026 - 17:25

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