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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 18:25

Descendentes de escravizados em Sertãozinho (SP) enfrentam expansão do agro para manter memória

Em meio aos canaviais de Sertãozinho, no coração da maior região sucroalcooleira do Brasil, no interior de São Paulo, resiste uma colônia de descendentes de escravizados, com casa centenária feita de adobe (tijolo usado no período colonial) e vigas de aroeira, fogão a lenha e capelinha dedicada a são Benedito.

O sítio, que leva o nome do santo, pertence a quatro bisnetos de Honório Sacramento, que comprou a propriedade em 1889, junto com outros companheiros, com a pequena indenização que receberam do antigo senhor depois da abolição da escravatura.

Honório e outros 60 companheiros eram escravizados na propriedade do maior fazendeiro da região, Henrique Dumont. Chamado de o rei do café, ele era pai de Alberto Santos Dumont. O fazendeiro chegou à região em 1870, construiu um império e chegou a ter 80 escravizados.

“Quando veio a abolição, o Henrique Dumont deu uma pataca [moeda] de ouro para cada um de seus escravizados e, com o dinheiro, cada um comprou o seu lote que, no final, formou uma fazenda de 175 alqueires”, conta Antônio Carlos de Faria, 69, um dos quatros bisnetos de Honório.

Eles hoje lutam para manter o que restou da propriedade, apenas com quatro alqueires. “A gente tem resistido ao assédio das usinas e plantações de cana que cercaram o sítio São Benedito, para manter o que sobrou.”

Pela história ouvida por Antônio, ao longo dos anos os antigos donos da propriedade produziam apenas para subsistência e, com dificuldades financeiras, foram pagando suas dívidas com a própria terra.

“Eles iam assinando as chamadas letras e acabavam pagando as dívidas com pedaços da propriedade”, diz. “Por isso sobraram apenas quatro alqueires dos 175 que um dia existiram”.

Antônio, seu irmão Salvador, 75, e as irmãs Mamedes, 83, e Creusa, 72, são parte da grande população de afrodescendentes que fazem de Sertãozinho a cidade do estado de São Paulo com a maior proporção de negros e pardos: 48,12% do total da população, segundo o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2022.

Um estudo do sociólogo Octavio Ianni, que resultou no livro “A Classe Operária Vai ao Campo” (ed. Cebrap, 1976), apontou que, em 1887, um ano antes da abolição, havia em Sertãozinho 1.379 escravizados que trabalhavam nas lavouras de café, numa população que totalizava 10.420 habitantes. Mas foi depois do fim da escravidão, no novo ciclo econômico, da indústria açucareira, que houve o maior fluxo de negros e pardos (livres) para essa região.

Ianni apontou que, em Sertãozinho, o ciclo da cana-de açúcar começou em torno de 1944: foi neste ano que a área cultivada com cana ultrapassou as áreas cultivadas com café.

E, junto com esse avanço da economia sucroalcooleira, cresceu o contingente dos assalariados temporários. Também chamados de boias-frias, esses profissionais, muitos deles afrodescendentes, vinham de outras regiões do país e se estabeleciam na periferia da cidade.

Para essa população, o sítio São Benedito, também chamado de Colônia Preta, virou uma referência.

“Desde a abolição, todos os anos no mês de maio acontece uma procissão que sai do distrito de Cruz das Posses e vem até o sítio trazendo a imagem de são Benedito, para não esquecermos o que significou o fim da escravidão”, diz Antônio.

São Benedito é considerado o padroeiro dos escravizados e seus descendentes. Ele próprio, nascido na Sicília, na Itália, em 1526, era filho de um escravizado da Etiópia.

O evento anual termina na capelinha construída pelo bisavô de Antônio e seus companheiros, ainda em 1889. “Ela foi feita em taipa de pilão e, em 1911, reconstruída em adobe”, explica.

“É um patrimônio dos negros de Sertãozinho que nunca vamos deixar ser destruído”. A capela foi tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Paisagístico, Histórico e Cultural da Prefeitura Municipal de Sertãozinho, em 2011.

Na festa em homenagem a são Bendito, o sítio é enfeitado de bandeirolas e, depois da missa, é servido um farto café da manhã, com rosquinhas e pães assados em forno de barro.

Essa festa, perpetuada ao longo do tempo, faz do sítio São Benedito, na opinião do historiador Rodrigo Touso, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), um lugar diferenciado na preservação da história afro-brasileira.

“A história sobrevive em razão da Festa de São Benedito”, afirma. “Com as pessoas do sítio ao longo desses mais de 120 anos, a história foi sempre contada de um para outro na prosa boa debaixo das mangueiras centenárias, ao redor do forno caipira, com seu fogo comum que alimentava todas as casas.”

noticia por : UOL

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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 18:25

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