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Cuiaba - MT / 7 de março de 2026 - 10:58

Você conhece seu perfil de investidor ou apenas marcou caixinhas?

Montaigne dizia que “a maior coisa do mundo é saber ser dono de si mesmo”. O mesmo vale para os investimentos: conhecer-se é tão importante quanto conhecer o mercado. Mas, quando falamos em perfil de investidor, muitos acreditam que já têm esse autoconhecimento apenas porque responderam a um questionário de cinco minutos no banco.

O problema é que esses testes, que deveriam ajudar, na prática não passam de burocracia. São superficiais, cumprem apenas a legislação e oferecem uma falsa sensação de segurança. O resultado? O investidor acredita que entendeu seu perfil, mas na verdade continua exposto a riscos que às vezes não tem condições de suportar.

No meu artigo de ontem, um leitor comentou: “É por isso que os bancos traçam o perfil do investidor”. De fato, eles traçam, mas de forma rasa. Esses questionários não passam de exigência legal.

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários), por meio da Instrução 539 — substituída pela Resolução CVM 30 —, e o Código de Regulação da Anbima determinam que instituições financeiras devem aplicar o chamado suitability, ou seja, verificar se os produtos oferecidos são compatíveis com o investidor. É uma obrigação criada para proteger o cliente, mas que no formato atual protege muito mais a instituição.

As perguntas aplicadas geralmente não passam de quatro a oito. Elas abordam de forma genérica renda, patrimônio, horizonte e experiência com investimentos e escolaridade. Nada muito além disso. É como tentar definir a personalidade de alguém perguntando apenas se prefere praia ou montanha. O retrato que sai daí é caricato e insuficiente.

O mais grave é que muitas vezes o resultado sai completamente distorcido. Já vi investidores extremamente conservadores classificados como agressivos porque responderam que buscavam “melhores retornos no longo prazo”. Da mesma forma, já presenciei investidores arrojados, acostumados à volatilidade da Bolsa, sendo classificados como conservadores porque declararam “desconforto com perdas”. A consequência é óbvia: um conservador pode ser empurrado para ativos arriscados que não suporta, e um agressivo pode ser limitado a produtos que não atendem seus objetivos.

Na prática, o que os bancos obtêm é um documento que serve como escudo jurídico. Se a aplicação der errado, a instituição se resguarda: “o cliente declarou que tinha perfil arrojado”. O problema é que, muitas vezes, essa autodeclaração não condiz com a realidade emocional, patrimonial ou de objetivos do investidor. Quantos já se disseram arrojados até verem a primeira grande perda na carteira? E, nesse momento, a reação costuma ser a pior possível: vender tudo no fundo do poço.

O verdadeiro perfil de investidor não se descobre em múltipla escolha. Ele exige reflexão mais profunda sobre horizontes de tempo, tolerância emocional às perdas, estabilidade da renda, responsabilidades familiares e até mesmo experiências anteriores de crise. É um processo de autoconhecimento mais parecido com terapia do que com um questionário rápido com alternativas.

Confiar cegamente no perfil gerado por esses testes pode ser um risco. O investidor pode acreditar que está protegido de decisões equivocadas quando, na verdade, está apenas com um rótulo burocrático colado em sua testa. Pior: pode acabar exposto a ativos totalmente incompatíveis com sua realidade, só porque marcou a alternativa “errada”.

Por isso, se há um teste que realmente importa, ele não está no banco. Está na sua reação diante de perdas e ganhos, no seu planejamento financeiro, no impacto que um prejuízo tem na sua rotina e na clareza que você tem sobre seus objetivos financeiros. O questionário das instituições é apenas um papel. O seu perfil real demanda experiência e planejamento para descobrir —e ele não cabe em meia dúzia de caixinhas.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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noticia por : UOL

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